7 de outubro de 2026 - 18:36

Slime pode fazer mal? O que se sabe sobre os riscos para crianças

Parece uma brincadeira inocente: cola, corante, um pouco de ativador e pronto, você tem um slime, nome da massa elástica e gelatinosa que virou febre entre as crianças. Mas algumas receitas populares na internet podem esconder ingredientes que exigem atenção.

É o caso do bórax, também chamado de borato de sódio, e do ácido bórico. Eles ajudam a formar a textura elástica característica do material.

O alerta ganhou força com a atualização recente da lista de substâncias proibidas em cosméticos e produtos de higiene pessoal pela Anvisa. A RDC 1.030/2026 incluiu ácido bórico, óxido bórico e diversos boratos, entre eles, o bórax.

“A mudança acompanha regras do Mercosul e referências regulatórias internacionais, e considera evidências toxicológicas acumuladas, sobretudo relacionadas à reprodução e ao desenvolvimento”, explica a farmacêutica Karina Soeiro, mestre em Ciências Farmacêuticas e pesquisadora na área de desenvolvimento de cosméticos.

A Sociedade Brasileira de Pediatria considera potencialmente perigosa a manipulação de produtos químicos para produzir slime e recomenda que crianças não manipulem compostos de boro. A Anvisa também informa que o uso do bórax como ativador do brinquedo não é uma finalidade regulamentada pela agência. A substância é autorizada para outras finalidades, como em fertilizantes, produtos de limpeza e até mesmo em medicamentos.

E se a criança colocar a mão na massa?

A absorção do bórax ou ácido bórico pela pele íntegra é relativamente limitada. Um estudo em humanos encontrou passagem de aproximadamente 0,21% a 5% da dose aplicada de derivados de boro nessas circunstâncias. Assim, uma brincadeira ocasional e breve não equivale a uma intoxicação sistêmica.

“O risco aumenta quando existe contato frequente ou prolongado, concentração elevada, grande área do corpo exposta ou pele com dermatite, fissuras, feridas ou queimaduras”, alerta a pediatra Quíssila Batista Neiva, coordenadora de Pediatria no Einstein Hospital Israelita em Goiânia. “O efeito mais esperado do contato cutâneo é local. Pode haver irritação, ardência, dermatite ou reação alérgica.”

Para crianças pequenas, no entanto, existe uma questão adicional: as mãos frequentemente vão parar na boca. “O boro é absorvido pelo trato gastrointestinal em proporção muito maior do que pela pele íntegra”, alerta Soeiro. A inalação também preocupa, principalmente durante o preparo, quando o bórax é manipulado na forma de pó.

A ingestão ou inalação de bórax pode causar náuseas, vômitos, dor e cólicas abdominais, diarreia com coloração azul/esverdeada e cianose (pele, unhas e lábios azulados ou acinzentados), além de tosse e alterações respiratórias. Em intoxicações mais graves, pode ocorrer queda da pressão arterial, alteração do nível de consciência, choque cardiovascular e problemas renais. Nesses casos, é necessário atendimento médico imediato.

Estudos com animais apontam que exposições suficientemente elevadas ao boro apresentam efeitos sobre reprodução e desenvolvimento. Foram observadas alterações testiculares, prejuízo da produção de espermatozoides e da fertilidade, além de alterações no crescimento e no desenvolvimento fetal. “Entretanto, não existe evidência demonstrando que uma criança que brincou algumas vezes com slime desenvolverá infertilidade, alteração da puberdade ou prejuízo reprodutivo”, ressalta Neiva.

Também não está comprovado que crianças sejam biologicamente mais sensíveis à toxicidade do boro do que adultos.A preocupação pediátrica está mais relacionada à dose proporcional ao peso, ao uso frequente, ao comportamento mão-boca e às características fisiológicas da infância, sobretudo entre lactentes e crianças pequenas, já que alguns sistemas responsáveis pela distribuição e eliminação de substâncias ainda estão em desenvolvimento.

“Sem bórax” nem sempre significa sem boro

Outra armadilha está nas receitas de internet anunciadas como “slime sem bórax”. Isso porque muitas substituem a substância por solução para lentes de contato. “Só que várias delas contêm ácido bórico e outros boratos. A troca, portanto, muda apenas a fonte do boro utilizada”, adverte a farmacêutica.

Também não basta assumir que todo slime industrializado é livre de boratos. De acordo com Karina Soeiro, muitos produtos comerciais utilizam compostos de boro. Ela cita um estudo que analisou 127 slimes comercializados em cinco cidades asiáticas. De acordo com os resultado, 70,1% dos produtos ultrapassavam o limite europeu de migração de boro de 300 mg/kg estabelecido para brinquedos de material pegajoso.

“A diferença é que um produto regularizado deve atender às normas aplicáveis à categoria de brinquedos, enquanto uma receita doméstica preparada com bórax em pó pode gerar concentrações completamente imprevisíveis”, observa a especialista. Por isso, ela aconselha evitar tanto ativadores caseiros preparados com bórax quanto produtos industrializados de procedência duvidosa.

A indústria nacional, por sua vez, está incorporando critérios específicos para essas substâncias. A química Neire Silva, coordenadora do Comitê Brasileiro de Segurança de Brinquedos da Associação Brasileira das Indústrias de Brinquedos (Abrinq), afirma que a revisão da série de normas NM 300 inclui limite máximo e método de ensaio para detectar bórax e ácido bórico em brinquedos.

A solução não é simplesmente proibir todo slime, mas evitar a fabricação caseira com substâncias químicas inadequadas, como bórax, ácido bórico ou água boricada, especialmente quando utilizadas em concentrações desconhecidas.

“Se os pais optarem por permitir a brincadeira, a alternativa de menor risco é escolher produto industrializado destinado especificamente ao público infantil, regularizado, identificado, com composição e faixa etária informadas pelo fabricante, e utilizá-lo conforme as instruções”, aconselha Quíssila Neiva.

Ela recomenda ainda não permitir a manipulação de substâncias em pó ou soluções concentradas por crianças, manter os ingredientes longe dos pequenos e evitar que comam ou bebam durante o manuseio do slime.

Se houver irritação, a primeira medida é interromper a brincadeira e lavar a pele com água corrente e sabonete suave. Em contato com os olhos, é preciso irrigar com bastante água. Bolhas, lesões extensas, dor intensa e persistente, dificuldade para respirar, vômitos repetidos, sonolência ou alteração da consciência exigem avaliação médica.

Em caso de ingestão de bórax, ácido bórico ou quantidade desconhecida de um produto concentrado, a orientação é procurar o Centro de Informações Toxicológicas (CIT) local e levar, sempre que possível, a relação ou as embalagens dos produtos utilizados na fabricação do slime. Além disso, não se deve provocar vômito.

noticia por : UOL

7 de outubro de 2026 - 18:36

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