O inimigo simplifica o mundo, elimina dúvidas, une ressentidos —e alivia. Não por acaso certas figuras históricas reaparecem com regularidade desconcertante. O antissemitismo, nesse sentido, é um bombril conceitual: serve para qualquer situação. O judeu já foi capitalista predatório e conspirador comunista, cosmopolita sem raízes e tribal fechado, poderoso demais e parasita social. A coerência nunca foi o ponto. As mil e uma utilidades, sim.
Vale repetir (porque a confusão hoje é conveniente): criticar Israel é legítimo. Não é, por si só, antissemitismo. Se fosse, boa parte dos judeus do mundo estaria se denunciando. Jornais israelenses criticam o governo diariamente, multidões vão às ruas protestar. Democracias fazem isso —ou deveriam.
O episódio do bar no Rio de Janeiro foi emblemático. O dono resolveu inovar no marketing e colocou na porta o aviso: americanos e israelenses não são bem-vindos. Ganhou aplauso digital, seguidores e uma vaquinha bem-sucedida. Chegou a se promover a “centro cultural”. É um exemplo perfeito da exclusão ganhando ares de virtude.
Na mesma semana, outro comerciante foi direto ao ponto. Recusou vender um produto a uma cliente judia porque estava “cansado de judeus”. Menos sofisticado, é verdade, mas sem truque semântico.
O ódio não precisa de coerência, precisa de direção. Você pode discordar de alguém sobre tudo, de política a futebol, mas é só descobrir um inimigo comum e pronto, nasce ali uma irmandade.
O escritor Eric Hoffer definiu o fenômeno em “The True Believer” (o verdadeiro crente, 1951). Identidades frágeis trocam o desconforto por uma identidade coletiva. Funciona bem —até certo ponto. Porque o mesmo ódio que une também corrói. Mais cedo ou mais tarde, precisará de novos alvos.
A degradação começa quando a crítica abandona o objeto e escorrega para o ataque à identidade. Criticar um governo dá trabalho, exige letramento, mente aberta e um esforço intelectual. Mais fácil rejeitar pessoas pelo passaporte.
Antissionismo não pode ser acusado de antissemitismo. Correto. Assim como antissemitismo não pode ser disfarçado de antissionismo. Quem ousa apontar o óbvio passa a ser acusado de censura. O truque é antigo.
A deputada Tabata Amaral (PSB-SP) propôs algo que deveria ser trivial, definir o que é antissemitismo para que ele possa ser reconhecido sem contorcionismo retórico. O projeto não cria crime, não inventa mordaça, não penaliza opinião. Parte de algo mais elementar: distingue crítica política de racismo.
A reação foi previsível. Vozes alarmadas disseram que o projeto é um escudo diplomático disfarçado de lei. Não é. O texto é explícito ao afirmar que críticas a Israel, quando equivalentes às dirigidas a outro país, não são antissemitas. Nada muda para quem critica de fato, muda para quem usa a crítica como disfarce.
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A tentativa de definir limites com precisão já é tratada como ameaça. Como se a liberdade de expressão dependesse da liberdade de exclusão.
Como qualquer vírus que se preze, o antissemitismo vive de mutações. Muda de forma, refina o contágio. O remédio legal vigente trata a versão antiga e deixa circular livre a cepa atual, que se esconde nos gânglios do politicamente correto. Bastam as placas que não aceitam judeus e discursos que fazem o mesmo serviço com um vocabulário “limpo”.
Hoje, o problema não está no preconceito, está na indelicadeza de chamá-lo pelo nome.
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noticia por : UOL






