23 de abril de 2026 - 6:36

"Por que a energia não é usada pelas pessoas?": avanço global da China em IA enfrenta resistência

Perto de uma rodovia, não muito longe de lagoas e dunas no litoral nordeste do Brasil, tratores estão preparando o terreno para um projeto emblemático na corrida global da IA (inteligência artificial).

O centro de processamento de dados de R$ 50 bilhões (US$ 9,5 bilhões) —que será alugado pela plataforma de compartilhamento de vídeos TikTok— será o primeiro da sua controladora chinesa ByteDance na América Latina.

O projeto também reflete a ambição do Brasil de aproveitar sua abundante energia verde para atrair a infraestrutura por trás da inteligência artificial, um campo no qual Pequim pretende ser uma superpotência.

Mas o plano ficou atolado em uma disputa ambiental, espelhando uma reação internacional desencadeada pelas demandas do boom de data centers por terra, água e eletricidade. Ativistas e povos indígenas locais questionam a adequação do projeto em uma área semiárida com histórico de seca.

“A América Latina em geral, e o Brasil em particular, têm potencial para se tornar um destino global para grandes data centers”, disse Rodrigo Abreu, CEO da Omnia, o grupo que está construindo o data center para o TikTok.

“Estamos falando de energia limpa e renovável amplamente disponível a preços competitivos.”

Com previsão de entrar em operação gradualmente a partir do final do próximo ano, o consumo de 300 megawatts de eletricidade do data center —equivalente a uma usina de médio porte— será atendido inteiramente por novos parques eólicos, segundo os desenvolvedores.

A Omnia afirmou que será tanto o maior centro individual de processamento de dados do continente quanto a primeira grande operação de “hiperescala” —enormes hubs que suportam serviços de nuvem e IA.

Chip Usher, diretor sênior de inteligência da organização sem fins lucrativos Special Competitive Studies Project, disse que o projeto no Brasil representa uma oportunidade para a China “exercer sua influência diplomática e econômica”.

“O futuro da economia digital é um campo de batalha”, acrescentou Usher, que passou três décadas na CIA. “E quem vai construí-lo, nós ou a China? Data centers são uma nova frente nessa competição global.”

A instalação, no município de Caucaia, deve ser a primeira de várias no terreno de 35 hectares, equivalente a 50 campos de futebol. O TikTok estimou um investimento total de R$ 200 bilhões (US$ 38 bilhões) até 2035.

Com promessas de 4.000 empregos permanentes e temporários, políticos saudaram o projeto como um impulso econômico para o Ceará, um estado no Nordeste mais pobre do país, marcado pelo crime organizado.

No entanto, o empreendimento provocou protestos do povo Anacé, que vive nas proximidades e tem queixas antigas sobre o fornecimento irregular de água e eletricidade. Eles temem que isso possa piorar e alegam não ter sido devidamente consultados. Além das colossais necessidades de energia, data centers frequentemente requerem quantidades significativas de água para resfriar os servidores.

“Como você pode ter um data center que vai usar [milhares] de litros de água quando pessoas na mesma região não têm água em suas casas?”, disse o líder comunitário Paulo Anacé. “Há cortes de energia toda semana.”

A Omnia insiste que não haverá impacto negativo em nenhum dos recursos localmente e afirma ter dialogado com os moradores. A instalação contará com um sistema de refrigeração de “circuito fechado” que recircula a água e, portanto, requer menos do que os métodos convencionais, segundo a empresa.

O uso total de água será de cerca de 30 mil litros por dia, equivalente a 72 residências, extraídos de poços no local. Um décimo é para resfriamento, com o restante para construção e uso humano.

“Consome um volume muito baixo, até insignificante, de água para uma operação deste tamanho”, disse Abreu. “Não há evaporação contínua de água [como] nos modelos antigos de resfriamento de data centers.” Um parque eólico construído especificamente para o projeto garantirá que o centro não concorra por fontes existentes da rede elétrica, acrescentou.

Os Anacé permanecem céticos. Paulo disse que quando a movimentação de terra começou no início do ano, caminhões extraíram água de uma lagoa onde os moradores lavam roupas, pescam e se banham, parando apenas após reclamações.

“Toda a água usada nesta fase de construção vem de caminhões-pipa de outra região”, disse a Omnia. “Não estamos competindo com nenhum abastecimento de água da comunidade e monitoramos nossos fornecedores terceirizados para garantir que sigam essa diretriz.”

Localizado em um vasto complexo portuário e industrial, as atrações do local incluem a proximidade com o ponto de chegada de cabos submarinos de internet na capital do estado, Fortaleza. O projeto é elegível para incentivos fiscais destinados a exportadores, já que processará apenas dados do exterior, não de brasileiros.

Após uma expansão significativa da energia eólica e solar nos últimos anos, o Brasil agora tem excesso de geração que a rede não consegue absorver, especialmente no Nordeste, então os defensores da hiperescala dizem que oferecem uma solução.

Mas ativistas atacam tanto o impacto ecológico quanto os supostos benefícios econômicos, ecoando críticas comuns de que data centers criam relativamente poucos empregos permanentes.

“O processo de licenciamento foi feito de forma completamente apressada e descuidada”, disse Julia Catão Dias, do Instituto de Defesa do Consumidor, uma organização sem fins lucrativos brasileira. “Este data center está sendo licenciado como um projeto de baixo impacto, como se fosse um shopping center, como se não consumisse quase nada de água, energia ou terra.”

Após pedidos de revogação da licença, o Ministério Público Federal encomendou um relatório de seus peritos técnicos. Publicado no final de 2025, foi altamente crítico, afirmando que o modelo de licenciamento era inadequado para um empreendimento de seu porte e sugerindo que seu uso real de água seria muito maior.

A Omnia refutou veementemente as conclusões, com Abreu chamando o relatório de “superficial”. A empresa disse que a alegação sobre água era “simplesmente errada” e que a captação planejada era sustentável. A agência ambiental do Ceará, por sua vez, defendeu seu processo como robusto e minucioso.

O procurador federal responsável pelo caso, Anastácio Tahim, solicitou uma avaliação adicional dos peritos técnicos antes de tomar uma decisão. “Não estamos aqui para bloquear o desenvolvimento, mas para garantir que ele cumpra as normas ambientais”, disse.

Além do debate sobre recursos naturais, questões de segurança também foram levantadas. Usher, o ex-analista da CIA, disse que a infraestrutura digital chinesa poderia conter “portas dos fundos” de segurança para seus serviços de inteligência estatal —alegações que têm sido consistentemente negadas por grupos chineses de IA. Abreu, da Omnia, disse que as leis de proteção de dados relevantes seriam cumpridas. O TikTok não respondeu aos pedidos de comentário.

Alguns em Caucaia apoiam o projeto e acreditam que ele já está trazendo dividendos. Em um posto de gasolina próximo que reabriu recentemente após vários anos, a caixa Danielle Santos, de 30 anos, disse: “Você ouve muitos comentários positivos.”

Como a disputa se desenrolará pode acabar sendo um caso de teste para a abordagem do Brasil em garantir enormes investimentos em IA, as esperanças da China de expandir sua influência tecnológica global —e se os moradores locais podem ser convencidos de que os benefícios de tal infraestrutura superam os custos.

Catão Dias, do Instituto de Defesa do Consumidor, disse: “Se esse excedente [de eletricidade] existe, por que não está sendo usado pelas pessoas que não têm energia?”

noticia por : UOL

23 de abril de 2026 - 6:36

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