25 de abril de 2026 - 20:14

Como uma descoberta arqueológica desafia Aristóteles

A arqueologia costuma habitar o imaginário popular através de imagens de exploradores sob o sol do deserto, removendo camadas de areia para desenterrar templos ou estátuas perdidas. Contudo, algumas das descobertas mais profundas sobre a história da consciência humana acontecem no silêncio climatizado de arquivos universitários, entre caixas de papelão e etiquetas amareladas.

Foi nesse cenário, nas prateleiras do Instituto Francês de Arqueologia Oriental (IFAO), no Cairo, que o papirólogo Nathan Carlig, da Universidade de Liège, deparou-se com o inesperado: um fragmento de papiro que sobreviveu por dois milênios apenas para nos contar, em primeira mão, o que pensava um dos homens mais enigmáticos da Grécia Antiga.

O manuscrito, catalogado como P.Fouad inv. 218, não veio de uma escavação recente, mas estava “esquecido” à espera de um olhar treinado que pudesse conectar seus caracteres gregos às ideias de Empédocles de Agrigento. Identificado em 2017, mas analisado com rigor apenas a partir de 2021, o achado é o que Carlig descreveu, em entrevista ao portal Gizmodo, como uma “Segunda Renascença”.

“É um pouco como se os humanistas do Renascimento redescobrissem os principais textos da Antiguidade Clássica”, afirmou o pesquisador. Pela primeira vez desde a Antiguidade, temos acesso direto a uma porção da obra do filósofo que julgávamos perdida para sempre no abismo do tempo.

Entre o misticismo e a física: quem foi Empédocles?

Para entender o peso desse fragmento, é preciso situar Empédocles (c. 495-435 a.C.) no mapa da inteligência humana. Ele faz parte do grupo que chamamos de pré-socráticos, os primeiros pensadores que decidiram substituir as explicações mitológicas pela investigação racional da physis (natureza). Se hoje buscamos a “partícula de Deus” ou a teoria de tudo, foi com homens como Empédocles que essa curiosidade estruturada no que conhecemos como a Física começou.

Empédocles era uma figura quase mítica: político democrata, médico e poeta que vestia sandálias de bronze e afirmava ter poderes sobre o clima. Na modernidade, seu conhecimento chegou até nós de forma fragmentada, como um eco distante. Dependíamos quase exclusivamente de citações indiretas, aquilo que os estudiosos chamam de “doxografia”. Aristóteles e Platão foram seus principais relatores, mas também seus maiores filtros.

Enquanto Platão utilizava as teorias de Empédocles sobre a percepção para construir seus próprios diálogos, Aristóteles o citava para, muitas vezes, apontar suas “falhas” lógicas. Esse ponto é crucial: por séculos, nossa visão de Empédocles foi a visão de seus críticos. O que o novo papiro nos oferece é a chance de ouvir o filósofo sem o ruído de seus sucessores.

Poros e eflúvios no papiro

O conteúdo revelado no Cairo trata da Physica, o grande poema de Empédocles, e foca em sua teoria das percepções sensoriais, especialmente a visão. O filósofo defendia que o mundo emite “eflúvios”,  partículas invisíveis que se desprendem dos objetos,  e que nossos sentidos possuem “poros” que funcionam como encaixes. Se o eflúvio for do tamanho exato do poro, ocorre a percepção.

O desafio de traduzir tal material é hercúleo. Além do estado físico do papiro, o grego antigo de Empédocles é poético e técnico ao mesmo tempo. Carlig reconheceu ao Gizmodo que, embora pudesse lidar com as questões filológicas, precisou de especialistas para decifrar a profundidade das ideias. A análise revelou conexões diretas com textos de Plutarco e Teofrasto, confirmando que Empédocles foi a fonte original de conceitos que também moldaram a biologia antiga.

Aqui reside uma provocação necessária sobre a historiografia da filosofia: até Aristóteles, um mestre da síntese, subtraía algo do pensamento de Empédocles ao tentar encapsulá-lo em frases breves. Em sua obra, Aristóteles chega a dizer que o filósofo siciliano “balbuciava” ao se expressar. Ao reduzir a teoria alheia para fortalecer o próprio argumento, o acadêmico acaba, muitas vezes, transformando um pensamento complexo e orgânico em uma caricatura útil. O papiro do Cairo nos mostra que Empédocles não balbuciava; ele possuía uma engenharia conceitual sofisticada que antecipava, de certa forma, o próprio atomismo de Demócrito.

A atemporalidade do pensamento

A descoberta de Carlig reforça algo que a historiografia frequentemente esquece: o cânone filosófico não é um arquivo neutro, mas o resultado de escolhas, filtros e disputas intelectuais. Por séculos, Empédocles nos chegou através das mãos de quem o citava para superá-lo. O papiro do Cairo é uma correção de rota.

O caso levanta uma questão incômoda e produtiva: quantos outros pensadores lemos, até hoje, através dos olhos de seus críticos? Empédocles teve a sorte de um papiro sobreviver num arquivo em Cairo. A maioria não teve. Isso não é um convite ao ceticismo paralisante, mas a um rigor maior sobre as fontes que aceitamos como definitivas — inclusive, e talvez especialmente, as mais consagradas, como o próprio Aristóteles.

noticia por : Gazeta do Povo

25 de abril de 2026 - 20:14

LEIA MAIS