8 de maio de 2026 - 10:51

Javier Milei vive crise na Argentina em meio a escândalos de corrupção e inflação em alta

“Vocês sabem quem foi mais atingido nesta economia em termos reais? Eu”, declarou Javier Milei, presidente da Argentina, em um evento de gala recentemente. “Sou o único cujo salário não mudou desde que assumi o cargo”, disse ele, argumentando que seus cortes recaíram sobre a classe política. “Sou o presidente mais mal pago das Américas.”

Essa mensagem dificilmente vai conquistar os argentinos que vivem com dificuldades financeiras. De fato, o índice de aprovação líquida de Milei despencou nos últimos meses, e está no pior nível desde que assumiu o cargo em dezembro de 2023.

O partido de Milei venceu as eleições legislativas de meio de mandato em outubro passado. Esse endosso de sua agenda radical de corte de gastos e liberalização permitiu que ele aprovasse uma série de reformas no Congresso. No entanto, os eleitores agora têm duas grandes queixas: escândalos de corrupção e uma economia em dificuldades.

Nos dois primeiros anos de Milei, suas políticas reduziram a inflação mensal para 1,5%, cerca de um décimo do nível anterior, mas desde então ela vem subindo gradualmente. A economia encolheu acentuadamente em fevereiro. Milei não enfrenta reeleição até outubro de 2027 e um boom energético pode ajudá-lo, mas ele precisa assumir o controle da situação.

Comecemos pelos escândalos. Em fevereiro do ano passado, Milei apoiou nas redes sociais a criptomoeda $LIBRA. Ela disparou de valor antes de despencar rapidamente, causando perdas de cerca de US$ 250 milhões para muitos detentores, exceto alguns grandes investidores que venderam no pico.

Milei rapidamente disse que “obviamente” não tinha nenhuma conexão com o empreendimento $LIBRA. No entanto, registros telefônicos obtidos recentemente por investigadores federais mostram que na noite da postagem de Milei houve sete ligações entre ele e um dos empresários por trás do projeto.

Investigadores encontraram rascunhos de documentos no telefone de um dos empresários de criptomoedas descrevendo potenciais acordos financeiros entre eles e Milei. Eles especificam três pagamentos totalizando US$ 5 milhões, incluindo um por nomear publicamente um dos empreendedores como assessor. Não está claro a quem os pagamentos se destinavam; não há evidências de que Milei concordou com eles ou os recebeu. Os promotores o nomearam como pessoa de interesse no caso, mas ele não foi indiciado. Todos os envolvidos negam qualquer irregularidade.

Os argentinos parecem ainda mais irritados com um escândalo envolvendo o chefe de gabinete de Milei, Manuel Adorni. Promotores federais estão investigando-o por suposto enriquecimento ilícito, após relatos de viagens luxuosas, incluindo uma viagem a Aruba paga em dinheiro, apesar de seu salário público modesto.

Os promotores também estão investigando uma viagem familiar em um jato particular para um resort uruguaio e a compra de um apartamento a um preço surpreendentemente baixo com um curioso empréstimo sem juros. Adorni nega irregularidades.

Milei o apoiou e atacou jornalistas. Ao longo de quatro dias em abril, ele publicou 86 postagens nas redes sociais atacando a imprensa e repostou outras 874. Ele frequentemente repete um bordão da direita americana: “Não odiamos jornalistas o suficiente.”

Em meados de abril, o governo de Milei bloqueou a entrada de repórteres na Casa Rosada, sede da presidência, depois que alguns deles supostamente gravaram vídeo no local sem autorização. (Os repórteres dizem que haviam notificado as autoridades.)

Ele chamou a mídia de “escória imunda” e repostou uma imagem gerada por IA (inteligência artificial) de um jornalista vestindo uniforme de presidiário. Em 4 de maio, os jornalistas foram autorizados a retornar, mas sob novas regras rígidas.

Os argentinos poderiam ter ignorado as acusações de corrupção se a economia estivesse indo bem —mas ela não está. Dados oficiais sugerem que o PIB (produto interno bruto) em fevereiro caiu 2,6% em relação a janeiro, a maior queda desde 2023. A atividade manufatureira e do varejo despencou. Esse cenário está reduzindo receitas tributárias, o que ameaça o impressionante superávit fiscal de Milei. Pressionado, o governo está atrasando pagamentos a alguns fornecedores de órgãos públicos.

Petróleo, mineração e agricultura continuam em alta. Milei diz que esses setores, junto com tecnologia, são o futuro da economia. No entanto, eles exigem relativamente poucos trabalhadores, respondendo juntos por apenas 12% do emprego no país.

Manufatura e varejo, assim como construção, são mais intensivos em mão de obra e respondem por uma parcela muito maior do PIB. Sua contração levou à perda de centenas de milhares de empregos assalariados desde que Milei assumiu o cargo. Pesquisas mostram que baixos salários e desemprego são agora as maiores preocupações dos argentinos.

Até agora, essas preocupações foram agravadas pelas políticas de Milei. Ele eliminou proteções e expôs empresas manufatureiras locais à concorrência estrangeira. Isso pode ser sábio, mas a transição dói. Ele priorizou a redução da inflação em detrimento da promoção do crescimento. Isso se traduziu em uma oferta monetária restrita e altas taxas de juros, que prejudicam negócios. Os empréstimos ao setor privado em pesos estão estagnados desde agosto.

Milei também contou com um peso forte em sua luta contra a inflação. Agora ele flutua dentro de bandas amplas e vem se fortalecendo durante boa parte deste ano. Isso se deve em parte ao fato de que as altas taxas de juros atraíram dinheiro para o peso. O aumento da produção de petróleo e as exportações em rápida alta indicam que o pico de preços causado pela guerra no Irã também fortaleceu a moeda.

Mas um peso forte tem prejudicado a manufatura ao tornar as importações rivais mais baratas, e também prejudica a construção. As incorporadoras pagam trabalhadores em pesos, mas vendem imóveis em dólares, então um peso forte comprime suas margens. A construção permanece em uma profunda recessão.

O pior de tudo é que mesmo as altas taxas de juros e a força recente do peso não foram capazes de derrubar a inflação. O índice mensal vem subindo há dez meses, atingindo 3,4% em março, cerca de 33% em termos anuais.

Em parte, isso se deve à falta de uma política monetária clara e previsível do governo para ancorar a inflação. Milei também vem cortando subsídios de energia e, em março, o choque do petróleo prejudicou esse esforço. O custo da carne bovina, uma favorita dos argentinos, disparou em meio a crise global.

Parte dessas questões deve aliviar em breve e a inflação pode cair um pouco, diz Santiago Bulat, da consultoria argentina Invecq. Mas outras pressões de preços podem crescer. O governo parece finalmente ter começado a priorizar o crescimento ao permitir a queda das taxas de juros. O risco é que o resultado disso seja um peso enfraquecido e uma inflação ainda alta.

A credibilidade de Milei está se acabando. Em março, ele disse que a inflação mensal seria inferior a 1% até agosto. Isso parece quase impossível.

Nem tudo, no entanto, é pessimismo. O crescimento pode melhorar em breve: analistas ainda esperam que supere 3% este ano. As grandes esperanças são a extração de petróleo em alta e o investimento internacional em gás e mineração. Sua expansão impulsionaria ainda mais as exportações.

O governo também vem acumulando reservas de dólares —mas está usando a maior parte delas para pagar dívidas. Milei precisa de financiamento em dólares para poder rolar a dívida externa que vence no próximo ano enquanto simultaneamente acumula reservas. Para esse fim, está trabalhando em um acordo para tomar emprestados US$ 2 bilhões de bancos comerciais, com garantias do Banco Mundial.

A eleição presidencial do próximo ano logo estará pairando tudo isso. As apostas são altas. A boa notícia para Milei é que, à medida que seu índice de aprovação cai, o de nenhum rival tem subido notavelmente. O frágil equilíbrio da Argentina é o grande desafio, e o histórico de má gestão econômica dos peronistas populistas é gritante.

À medida que as eleições se aproximam, uma pesquisa ruim para Milei poderia causar pânico nos mercados. A instabilidade resultante poderia significar pesquisas piores, desencadeando uma bola de neve prejudicial. Os investidores já exigem um prêmio maior para permanecer expostos a títulos argentinos além do mandato atual de Milei. Para evitar espirais, ele precisa estar no caminho para vencer confortavelmente. Crescimento, empregos e queda da inflação ajudariam muito. Ele não tem tempo a perder.

noticia por : UOL

8 de maio de 2026 - 10:51

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