Se as eleições nacionais aqui no Reino Unido fossem hoje, o partido mais votado seria o liderado por um senhor desprezível chamado Nigel Farage. É daqueles políticos que enchem o eleitor de promessas vazias e adoram uma fake news. Foi um dos idealizadores do Brexit —saída do Reino Unido da União Europeia— dizendo aos britânicos que imigrantes roubavam seus empregos e eram terroristas.
Não satisfeito em ver o país mais isolado, dividido e pobre depois do divórcio dos europeus, criou o partido de extrema-direita Reform UK. Diz que vai expulsar também parte dos imigrantes legais. Tenta ganhar a simpatia de torcedores de futebol. Lançou um uniforme com a bandeira do Reino Unido e o escudo com a frase “Família, Comunidade e País.” Usa o esporte para criar a ideia de pertencimento em homens brancos da classe trabalhadora. Diz que o país tem uma geração jovem “perdida” por causa da imigração. Logo em uma nação cuja liga é a melhor do mundo graças à diversidade de talentos.
Nos anos 80, o hooliganismo afastou o público dos estádios, mexeu com a identidade nacional. Nas décadas seguintes, grupos de extrema-direita como a English Defence League usaram a cruz de São Jorge da bandeira da Inglaterra como símbolo político. A tática de associar patriotismo a esporte não é incomum. Qualquer semelhança com a tentativa de sequestro da camisa amarela do Brasil, anos atrás, não é mera coincidência.
O Fla-Flu em que se transformou o debate sem fim sobre levar ou não Neymar para a Copa do Mundo é um reflexo da polarização extrema no Brasil, amplificada pela política e multiplicada pelo lixo em que redes sociais se tornaram. Polarização, inclusive, incentivada pelo jogador —”Vota, vota e confirma, 22 é Bolsonaro” em 2022— lembra? Vale a pena levar alguém inconsistente em campo, bomba-relógio dentro e fora dele, em troca de alguns minutos de uma jogada brilhante? Se for, haverá novas discussões —será ou não titular? Qual a próxima polêmica?— que tiram o foco de questões mais relevantes.
Segunda-feira (18), quando Carlo Ancelotti anunciar a lista com os 26 jogadores que vão ao Mundial, o treinador herda, sem querer, parte do nosso triste passado recente. Não tem culpa nem responsabilidade sobre isso, mas terá como desafio indireto tentar recuperar o orgulho do brasileiro pela camisa da seleção. Sua apropriação pelo Bolsonarismo tem consequências até hoje. Claro que a falta de um título mundial desde 2002 aumenta, e muito, a desconfiança com o time, mas muita gente não quer usar o uniforme do Brasil e ser enquadrado em um contexto político com o qual não se identifica. No meu caso, a única camisa amarela que uso é a feminina, com o nome da Marta.
Ancelotti demonstra, de forma genuína, um amor “das antigas” pela linda camisa amarela do Brasil. Como muitos europeus, tem um olhar de fora, sem ideologia, com admiração. Que bom ter renovado até 2030. Terá mais tempo e pode, mesmo sem querer —repito, não tem nenhuma responsabilidade ou obrigação— ajudar a mostrar que símbolos nacionais não precisam ser ligados à intolerância. A única questão é que, hoje em dia, para certas pessoas, aprender valores como respeito pode ser mais difícil do que trazer o hexa.
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noticia por : UOL






