O início do programa de financiamento de carros Move Brasil, no dia 19 de junho, fez concessionárias receberem um volume incomum de motoristas de aplicativo e taxistas interessados em comprar um carro zero com juros reduzidos.
O aumento da procura, porém, ainda não se transformou na mesma proporção em vendas: vendedores relatam que muitos clientes chegam às lojas acreditando já ter o financiamento garantido, enquanto bancos seguem barrando parte das propostas na análise de crédito.
Segundo concessionárias ouvidas pela Folha, o maior desafio nesta primeira semana do programa tem sido alinhar as expectativas dos consumidores às regras do financiamento. A demora nas respostas das instituições financeiras aumenta a frustração de clientes e vendedores.
Em oito concessionárias Nissan na Grande São Paulo, por exemplo, foram registradas 91 propostas de financiamento em um único dia, das quais apenas seis haviam sido aprovadas até o momento do levantamento. Em dias considerados normais, a rede costuma receber cerca de 20 pedidos de análise de crédito, com taxa de aprovação próxima de 50%.
“O Move Brasil teve uma alta demanda, mas de muita gente desinformada”, afirma Leandro Schuber, diretor das oito concessionárias Nissan. Segundo ele, muitos consumidores chegaram às lojas acreditando que o pré-cadastro no portal do governo já equivalia à aprovação do financiamento.
Outros esperavam conseguir crédito mesmo estando negativados ou imaginavam que todos teriam direito automaticamente à entrada zero e ao parcelamento em até 72 meses. Alguns, ainda, sequer pertenciam ao público-alvo.
“Tive situação de cliente que me ligou e falou: ‘Vou comprar pelo Move Brasil’. Perguntei: ‘Mas você é Uber?’ ‘Não, não sou Uber'”, conta o diretor.
Folha Mercado
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Schuber afirma que, em muitos casos, o consumidor nem demonstrava interesse pelo veículo, e apenas queria enviar a proposta ao banco para ver se seria aprovado. Segundo ele, depois de obter uma aprovação, alguns clientes passaram a negociar preços entre diferentes marcas.
O executivo afirma que o excesso de atendimentos também acabou afetando outras áreas do negócio. Como os vendedores passaram a dedicar boa parte do tempo às dúvidas sobre o programa, a atenção disposta a outros clientes do mercado convencional diminuiu, o que pode ter reduzido as vendas de veículos de varejo, para pessoas com deficiência (PCD) e até de seminovos.
“Acho que o sentimento hoje é de frustração. No primeiro momento, falando de Move Brasil”, afirma.
Na Honda Flora Motors, a percepção é mais otimista. O diretor Sergio Roveri afirma que o movimento nas lojas cresceu desde o lançamento do programa, apesar de ainda principalmente para esclarecimento de dúvidas.
“Está sendo bom, a gente teve um aumento exponencial da busca por isso”, afirma. Segundo ele, o atendimento também tem sido mais consultivo: primeiro o cliente entende quais veículos se enquadram no programa, depois escolhe o modelo e, somente então, inicia a etapa de financiamento junto ao banco.
O executivo afirma que ainda é cedo para medir a taxa de aprovação das propostas, já que os retornos das instituições financeiras começaram apenas após o início da operação do programa.
Vendedora da loja da Honda, Cláudia Leite afirma que teve muitos clientes nos últimos dias, em diferentes etapas: alguns ainda regularizam pendências financeiras ou aguardam isenções fiscais, enquanto outros já estão prontos para comprar o veículo. “Vieram diversos perfis de clientes”, diz.
A assessoria da Honda informou que não divulga números específicos do programa, mas afirmou que a receptividade tem sido positiva e ressaltou que a aprovação do crédito depende exclusivamente da análise das instituições financeiras.
A BYD informou ter atendido mais de 14,5 mil taxistas e motoristas de aplicativo em mais de 210 concessionárias no primeiro dia do Move Brasil. Segundo a empresa, houve formação de filas em diversas unidades do país.
A Toyota afirmou que registrou um volume de solicitações aproximadamente três vezes superior ao observado antes da adesão ao programa e disse que as aprovações de crédito ocorrem “dentro da normalidade”.
Já a Renault informou que recebeu muita procura no fim de semana, mas ainda aguarda a aprovação das propostas pelos bancos.
Volkswagen, Stellantis, Hyundai e Chevrolet não se pronunciaram sobre os primeiros dias de programa.
BANCOS ADEREM EM RITMOS DIFERENTES
Nem todas as instituições financeiras aderiram ao programa.
O Itaú afirmou que optou por não participar da linha por questões operacionais e porque o limite de garantias disponível no Fundo Garantidor para Investimentos (FGI) já está comprometido com outras modalidades de crédito.
O Santander diz que ainda está se preparando para iniciar a operação no programa. “As condições serão apresentadas durante a simulação, e a contratação estará sujeita à elegibilidade do cliente e do veículo, à análise de crédito e à documentação exigida”, diz.
O Bradesco informou que não aderirá ao Move Brasil.
Já Sicredi e Sicoob confirmaram participação, mas disseram ainda não possuir dados consolidados sobre a operação.
Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil e Safra, contatados desde a última quarta-feira (24), não haviam se manifestado oficialmente até a conclusão desta reportagem.
A Febraban (Federação Brasileira de Bancos) diz apoiar o programa e trabalhar junto com o governo para permitir seu funcionamento. Segundo a entidade, ajustes operacionais e tecnológicos são comuns nos primeiros dias, e as instituições participantes atuam para assegurar uma experiência mais fluida aos clientes. “A concessão de crédito continua sujeita às análises de risco e às políticas de crédito de cada instituição, em conformidade com a regulamentação vigente.”
ENTENDA POR QUE O CRÉDITO CONTINUA RESTRITO
Para Ricardo Thomaziello, diretor de análise da Serasa Experian, como muitos motoristas não possuem vínculos tradicionais de emprego, os bancos costumam ter menos informações para avaliar sua capacidade de pagamento. Segundo ele, o Move Brasil tende a reduzir essa assimetria ao fornecer dados adicionais sobre a atuação desses trabalhadores, o que pode tornar a avaliação mais precisa.
O executivo ressalta, porém, que o cenário macroeconômico, com juros elevados e inadimplência ainda alta, faz com que as instituições financeiras permaneçam mais cautelosas na concessão de crédito. “O momento não é bom. Isso acaba mexendo com a análise de risco.”
Thomaziello afirma que a Serasa fornece informações sobre o score de crédito e histórico de mercado, mas cada instituição combina esses dados com critérios próprios de risco antes de aprovar ou negar um financiamento.
Segundo ele, uma mesma pessoa pode ter o financiamento aprovado em um banco e recusado em outro, já que cada instituição define o nível de risco que está disposta a assumir.
O especialista acrescenta que o programa ainda está em fase inicial e deve passar por um período natural de adaptação operacional. Para ele, à medida que bancos e consumidores se familiarizarem com as regras, será possível avaliar com mais precisão seus resultados e eventual impacto sobre a concessão de crédito.
Veja lista de carros que entram no financiamento
Carros flex, híbridos flex, elétricos e veículos movidos exclusivamente a etanol. Modelos movidos apenas a gasolina ou diesel ficarão de fora. O valor máximo do automóvel será de R$ 150 mil.
- BYD Dolphin
- BYD Dolphin Mini
- Chevrolet Montana
- Chevrolet Onix
- Chevrolet Onix Plus
- Chevrolet Sonic
- Chevrolet Spark EUV
- Chevrolet Spin
- Chevrolet Tracker
- GWM Ora 03
- Honda City Hatchback
- Honda City Sedan
- Honda HR-V
- Honda WR-V
- Hyundai Creta
- Hyundai HB20
- Hyundai HB20S
- Nissan Kait
- Nissan Kicks
- Nissan Versa
- Geely EX2
- Renault Duster
- Renault Kardian
- Renault Kwid
- Citroën Aircross
- Citroën Basalt
- Citroën C3
- Fiat Argo
- Fiat Cronos
- Fiat Fastback
- Fiat Mobi
- Fiat Pulse
- Jeep Compass
- Jeep Renegade
- Peugeot 208
- Peugeot 2008
- Toyota Yaris Cross
- Volkswagen Nivus
- Volkswagen Polo
- Volkswagen Saveiro
- Volkswagen T-Cross
- Volkswagen Tera
- Volkswagen Virtus
Veja itens de segurança que também têm juros mais baixos
- Alarme/alerta antifurto (alerta sonoro e/ou visual em caso de violação)
- Barras de proteção (reforço físico contra arrombamento)
- Blindagem parcial de centrais eletrônicas/Cofre Blindado – Safecar (protege módulos de rastreamento, telemetria e ignição)
- Bloqueador veicular (permite bloqueio controlado da ignição, combustível ou funcionamento)
- Botão de pânico (permite acionamento de alerta pelo motorista)
- Cadeados e travas reforçadas (usados em portas, carrocerias, implementos, baús e compartimentos)
- Câmeras embarcadas/Dashcam – frontal + interna (registro interno ou externo do veículo)
- Chave codificada (partida condicionada à identificação eletrônica)
- Cofres embarcados (usados para documentos, valores, dispositivos ou equipamentos)
- Conectividade com central de monitoramento (acompanhamento remoto e resposta a eventos)
- Controle remoto de bloqueio/Bloqueador remoto veicular (autoriza bloqueio por central de monitoramento)
- Divisória de segurança veicular ou “taxi partition” (divisória instalada entre os bancos dianteiros e traseiros)
- Fechaduras reforçadas (fechaduras de maior resistência em portas, baús e compartimentos)
- Geofencing (alerta quando o veículo sai de área autorizada)
- Imobilizador eletrônico (impede a partida sem chave, transponder ou autenticação válida)
- Leitor RFID/NFC (controle de autorização de motorista ou carga)
- Películas de segurança/Blindagem de vidros (películas reforçadas que aumentam a resistência dos vidros contra quebra por impacto)
- Porcas antifurto para rodas (travas específicas para as rodas, dificultando o furto de pneus)
- Rastreador veicular/Sistema de rastreamento GPS (permite localização do veículo por GPS, rede celular, radiofrequência ou tecnologias combinadas)
- Reconhecimento facial ou biometria (controle de acesso do condutor)
- Registro eletrônico de eventos (histórico de violações, bloqueios, paradas ou desvios de rota)
- Sensor de abertura de portas (detecta abertura indevida de portas, baú ou compartimentos)
- Telemetria embarcada (monitora uso, rota, velocidade, paradas e eventos operacionais)
- Trava de bateria (dificulta furto ou desconexão da bateria)
- Trava de câmbio (impede a mudança de marchas)
- Trava de estepe (evita furto de pneu sobressalente)
- Trava de pedal (bloqueia pedal de freio, embreagem ou acelerador)
- Trava de roda (bloqueia o deslocamento do veículo)
- Trava de tanque (protege contra furto de combustível)
- Trava de volante (dispositivo que impede ou dificulta o giro do volante)
De acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, o financiamento para seguro não entra na composição do preço do carro, e não conta para o valor máximo de R$ 150 mil. No caso das mulheres, acessórios de segurança também não contam.
Como pedir o financiamento?
- Cadastro: Motoristas devem acessar a plataforma https://www.gov.br/mdic/pt-br/assuntos/sdic/move-brasil e autorizar o uso de dados para o sistema verificar se têm direito.
- Confirmação: A resposta da análise será enviada por meio da caixa postal do portal gov.br
- Escolha do veículo: Os motoristas que tiveram o cadastro aceito poderão escolher um dos veículos que se enquadram no programa Mover. Os profissionais com o cadastro aprovado já podem procurar uma concessionária
- Contratação: O banco escolhido pelo motorista fará a análise de crédito e, se aprovada, concluirá a contratação com as condições do programa.
Quem pode participar?
Taxistas registrados e em atividade, cooperativas de táxi e motoristas de aplicativos com cadastro ativo há pelo menos 12 meses que tenham realizado ao menos cem corridas nesse período na mesma plataforma.
A validação dos motoristas de aplicativo será feita pelas próprias plataformas. No caso dos taxistas, a confirmação ocorrerá via Receita Federal e gov.br.
noticia por : UOL





