5 de outubro de 2026 - 6:50

Com El Niño, praias estão desaparecendo na Califórnia

Há muito tempo, os moradores do sul da Califórnia encaram o desaparecimento de suas praias como um problema abstrato a ser resolvido pelas gerações futuras.

Mas não mais.

Ondas gigantes têm castigado o litoral nas últimas semanas, expondo a vulnerabilidade imediata da orla do estado.

Em Long Beach, moradores foram obrigados a fugir quando o Pacífico atingiu suas casas neste mês. Mais ao norte, uma enorme cratera levou a evacuações em Malibu, em frente à mansão do ator Nicolas Cage.

No condado de Orange, as ondas implacáveis interromperam o tráfego em uma importante linha ferroviária e esfacelaram parte do estacionamento de uma praia. Casas avaliadas em milhões de dólares foram arrastadas para o mar.

Por mais destrutivas que as tempestades já tenham sido neste ano, moradores e líderes locais estão se preparando para algo muito pior nos próximos meses. O motivo é a intensificação do El Niño, que especialistas estimam que pode ser o mais forte e chuvoso já registrado.

“Estamos na fase do humor sombrio do luto”, conta Chris Rogers, 51, em sua casa agora inabitável. O imóvel fica em uma rua estreita e fechada, entre uma linha férrea e o que um dia foi uma praia em Dana Point.

Hoje em dia, viver na costa da Califórnia significa conviver com a impermanência. Casas no alto de penhascos ou à beira-mar podem desaparecer. As que ficam nas colinas podem pegar fogo, como aconteceu com as de Malibu e Pacific Palisades nos incêndios de 2025. Ainda que muitas famílias tenham ido embora, várias, como a de Rogers, acreditam que podem encontrar uma maneira de ficar.

Na semana passada, o governador Gavin Newsom declarou estado de emergência em toda a Califórnia devido ao El Niño, com o objetivo de preparar o estado para os próximos meses. Autoridades estaduais pediram aos moradores que não subestimem o potencial de condições extremamente perigosas no litoral nos próximos meses.

Para muitos, os danos deste verão estão provocando uma tomada de consciência. Moradores lutam para proteger suas propriedades à beira-mar e pedem obras de contenção da erosão costeira. Essas medidas incluem a instalação de barreiras de pedras ou do reforço da faixa de areia.

Mas essas medidas emergenciais também podem acelerar a deterioração das praias. A Comissão Costeira da Califórnia e outros órgãos reguladores têm restringido intervenções drásticas que talvez garantam apenas alguns meses ou anos adicionais de proteção.

Esses esforços apenas adiam o inevitável, dizem os especialistas. Sem a ocupação humana, as praias evoluíam com o movimento natural de avanço e recuo da areia, e a Comissão Costeira quer permitir que essas mudanças naturais ocorram. Isso pode envolver transferir estacionamentos e estradas para áreas mais afastadas da costa e substituir calçadas por trilhas entre dunas e plantas nativas.

A erosão perto de propriedades privadas é um problema muito mais difícil de resolver.

Na casa de Rogers, as janelas que antes tinham vista para o oceano Pacífico agora estão inclinadas sobre a areia, que tomou conta da sala de estar. Ao inspecionar recentemente os estragos, a espuma das ondas chegava a seus pés enquanto tentava não passar sob os beirais instáveis da casa, construída em 1953. Para ele, o problema não teria existido se a faixa de areia fosse maior.

Alguns moradores do sul da Califórnia começaram a imaginar como será a vida com um litoral transformado.

O centro da cidade de Laguna Beach fica na saída de um cânion, e muitas casas estão localizadas em ruas sinuosas, bem acima da praia. Dave Kiff, administrador municipal, disse que está se preparando não apenas para ondas grandes, mas também para inundações catastróficas, deslizamentos de terra e até incêndios florestais —fenômenos que podem ser agravados pelo El Niño.

“Nós nos preocupamos com tudo isso”, disse Kiff.

Gary Griggs, professor da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, explica que o litoral da Califórnia foi ocupado durante um período de relativa calmaria, entre as décadas de 1940 e 1970, quando as praias da região eram estáveis e largas.

Desde então, a linha mediana de maré alta da costa da Califórnia avançou apenas alguns milímetros. Mas, segundo ele, eventos climáticos extremos, incluindo furacões recentes no Pacífico, ampliaram os efeitos da elevação do nível do mar, gerando ondas maiores durante as marés altas.

Isso foi suficiente para espremer muitas praias até quase fazê-las desaparecer. Embora a elevação do nível do mar seja o grande problema no fim do século, o desafio mais imediato serão “esses eventos extremos de curto prazo, que a Califórnia já enfrentou várias vezes”, disse Griggs.

A única solução permanente, segundo esses especialistas, é sair do caminho. Mas proprietários de imóveis à beira-mar, assim como algumas autoridades locais, culpam o governo —e não as mudanças climáticas— por seus problemas.

Katrina Foley, supervisora do condado de Orange que representa a região, disse ter descoberto apenas alguns anos atrás que o Corpo de Engenheiros do Exército dos Estados Unidos e o condado haviam acordado que reporiam a areia das praias próximas quando o porto de Dana Point foi dragado pela primeira vez, na década de 1960. Isso nunca aconteceu.

À medida que as praias da região foram se estreitando, disse ela, passou a aprender tudo o que podia sobre areia: onde encontrá-la, como ela poderia ser transportada para as praias que precisam e para onde se deslocaria depois de depositada nelas.

Foley disse acreditar que seria equivocado desistir da reposição de areia apenas por causa da inevitável elevação do nível do mar. Segundo ela, dragagens anteriores de portos e obras costeiras também contribuíram para a atual vulnerabilidade das praias, e vale a pena tentar reverter esses impactos.

“As praias não teriam chegado a este ponto se não fosse pela intervenção humana”, disse ela.

Autoridades locais, por outro lado, disseram que precisavam levar em consideração a saúde do litoral no longo prazo.

“Não queremos ficar nessa postura reativa toda vez que houver uma tempestade”, disse Kelsey Ducklow, coordenadora de resiliência costeira da Comissão Costeira da Califórnia. “Esses eventos estão nos mostrando que precisamos agir agora e que, infelizmente, precisamos tomar algumas dessas decisões difíceis para nos prepararmos para um futuro melhor.”

noticia por : UOL

5 de outubro de 2026 - 6:50

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