Uma pesquisa do Instituto Oncoguia mostra que 82,3% dos pacientes com câncer e familiares já usaram ferramentas de inteligência artificial (IA) para questões relacionadas à saúde, à doença ou ao tratamento. O levantamento foi feito por meio de questionário online com 1.186 pessoas, entre julho e setembro deste ano.
O principal uso da IA é para compreender exames e laudos médicos, citado por 79% dos entrevistados. Também aparecem entre os motivos entender o diagnóstico (67%), pesquisar efeitos colaterais e formas de amenizá-los (63,9%) e conhecer opções de tratamento (57,3%).
A maioria dos usuários (92,9%) disse que a IA ajudou na compreensão da doença ou do tratamento. As plataformas mais usadas foram ChatGPT (69,1%), Gemini (57,1%) e Meta AI no WhatsApp (25,2%).
Para Luciana Holtz, psicóloga e presidente do Oncoguia, os resultados mostram que a IA já ocupa espaço na rotina dos pacientes e pode funcionar como apoio diante das limitações de tempo nas consultas médicas e das dúvidas que surgem fora do consultório. “O efeito colateral acontece em casa, não acontece no consultório”, diz.
Do total de participantes, 93% eram pacientes, e 4,6%, familiares ou cuidadores. A pesquisa, à qual a Folha teve acesso, teve participação voluntária e não traz recorte por região. Como os participantes não foram selecionados de forma aleatória para representar a população brasileira com câncer, os resultados não permitem estimar o uso de IA no país.
Ainda assim, o uso é percebido como frequente por quem acompanha esses pacientes. “Agora é muito comum, todo mundo usa”, diz a oncologista Clarissa Baldotto, presidente da SBOC (Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica). Holtz também diz notar que a tecnologia já faz parte da rotina de quem passa pelo tratamento.
Baldotto diz que a IA acabou entrando para suprir lacunas da própria consulta. “A consulta de oncologia é uma consulta complexa, porque ela tem várias camadas, desde o entendimento do exame até conversas sobre coisas pessoais, com a família”, diz. “Muitas vezes o paciente está psicologicamente abalado. Ele não consegue absorver tudo aquilo que é conversado.”
No consultório, diz a oncologista, a conversa com pacientes que pesquisam sobre a doença ficou mais fluida. Como impressão pessoal, ela vê a IA como um filtro melhor do que as redes sociais, de onde muitos já traziam informações nem sempre verdadeiras.
Mais da metade (58,4%) dos entrevistados na pesquisa relatou receio de receber informações incorretas, e 79,2% afirmaram conferir sempre ou na maioria das vezes o que a IA responde. O médico é a principal referência para essa checagem, segundo 64,6%, e 64,9% já levaram à equipe de saúde informações obtidas com IA.
“Apesar de ele ir buscar, apesar de ele gostar do que encontra, quando ele está inseguro, ele corre para o médico. Isso é bom”, diz Holtz.
Segundo Baldotto, a orientação da SBOC aos oncologistas é não desestimular o uso nem constranger quem recorre à IA, mas atuar como curador dessas informações, pedindo que o paciente leve à consulta o que pesquisou.
O cuidado que o paciente deve ter, afirma, é não tomar nenhuma conduta com base apenas na ferramenta, que pode não ter todo o contexto necessário para interpretar um exame. “Se existe essa lacuna e a IA está sendo usada, que ela sirva para estreitar o laço”, diz a presidente da Sboc.
O Instituto Oncoguia recomenda usar a IA para entender melhor o câncer, e não para chegar sozinho a um diagnóstico ou escolher ou mudar o tratamento com base apenas no que a ferramenta disser.
Se a resposta for diferente do que o médico falou, a orientação é não escolher um lado, mas levar a diferença para a consulta em forma de pergunta.
Os resultados da pesquisa embasaram um livro eletrônico gratuito lançado pelo instituto nesta quinta-feira (1º), com orientações para o uso seguro da IA por pacientes oncológicos.
O guia informa que a IA pode escrever uma resposta convincente e ainda assim errada, além de inventar referências. Por isso, recomenda pedir sempre as fontes, priorizando diretrizes médicas, sociedades científicas e órgãos oficiais, e conferir se elas existem. Também sugere perguntar a data da informação, já que, na oncologia, medicamentos e indicações mudam com frequência.
O material também recomenda cuidado na leitura de resultados de exames. Um marcador alterado ou um valor destacado em vermelho pode causar ansiedade, mas cabe à equipe que conhece o caso dizer o que aquilo significa.
O mesmo vale para estatísticas de sobrevida e risco de recidiva, que podem vir de populações diferentes ou de tratamentos antigos e não representam uma previsão individual.
Para proteger a privacidade, a orientação é não compartilhar dados que identifiquem o paciente, como CPF, endereço, telefone e carteirinha do plano.
Em caso de mal-estar ou de situação que pareça urgente, o guia recomenda não esperar respostas da IA e procurar a equipe ou um serviço de saúde.
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noticia por : UOL






