Debate entre Lula e Flávio Bolsonaro teve distorções e dados falsos; veja checagem

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidatos na corrida pelo Palácio do Planalto, fizeram um debate marcado por trocas de acusações neste domingo (18). Em meio a elas, ambos fizeram declarações incorretas sobre economia e gastos do governo, assim como falas imprecisas ou exageradas em relação a suspeitas de corrupção e outros temas.

Veja checagem de algumas das falas no debate da Band.

Flávio erra ao afirmar que viagens de Janja e Lula custaram R$ 7 bilhões

O senador errou ao afirmar que viagens do seu adversário na disputa ao Planalto, o presidente Lula, e da primeira-dama, Rosângela Lula da Silva, a Janja, custaram R$ 7 bilhões.

A cifra é apresentada em publicações nas redes sociais críticas a Lula ao menos desde 2025, mas se refere ao total gasto por órgãos do governo federal em viagens nacionais e internacionais. Os deslocamentos feitos pelos funcionários de diversos órgãos federais somam R$ 8,46 bilhões desde 2023, segundo o Portal da Transparência.

Dos R$ 1,32 bilhão desembolsado em viagens por órgãos federais desde janeiro, R$ 30,8 milhões são de deslocamentos da Presidência. O valor inclui diárias e passagens de seguranças, assessores e outros funcionários do órgão, não apenas com Janja e Lula.

Lula erra ao afirmar que PIB só voltou a crescer em seu governo

O candidato errou ao dizer que, desde o fim de seu segundo governo em 2010, o PIB (Produto Interno Bruto) do Brasil só voltou a crescer acima de 3% quando ele retornou à Presidência, em 2023. No primeiro ano do governo de Dilma Rousseff (PT), o PIB teve uma alta de 4%. Durante a gestão de Jair Bolsonaro (PL), chegou a crescer 5%, em 2021. No entanto, o petista acertou ao afirmar que a economia teve alta de 7,5% ao fim de seu primeiro ciclo de governo.

Lula acerta ao dizer que inflação dos alimentos no governo Bolsonaro foi superior à de sua gestão, mas é impreciso nos dados

O presidente foi impreciso ao falar sobre a inflação dos alimentos, mas acertou ao afirmar que a alta dos preços no seu mandato foi menor do que a do ex-presidente Bolsonaro. Ele disse que seu governo teve uma inflação de alimentos acumulada de 13%, enquanto a da gestão Bolsonaro foi de 56,17%. O número correto, neste último caso, era de 54,2%.

Também foi impreciso ao falar sobre o poder de compra do salário mínimo em relação à cesta básica. Lula afirmou que, durante o governo Bolsonaro, o salário mínimo comprava 1,8 cesta básica e que, em sua gestão, o número subiu para 2,2 cestas básicas.

Em agosto, um salário mínimo conseguia comprar o equivalente a 1,8 cesta básica. O cálculo considera o piso deste ano, reajustado por Lula para R$ 1.621, e o preço médio da cesta na cidade de São Paulo (R$ 900,59). Não há uma média nacional para esse conjunto de alimentos.

O patamar de 1,8 cesta básica é 11,3% superior ao de agosto de 2022, de 1,62, na época da gestão de Jair Bolsonaro.

Falta contexto em fala de Lula sobre R$ 134 milhões de Vorcaro a ‘Dark Horse’

O presidente Lula afirmou que Flávio Bolsonaro “pegou” R$ 134 milhões de Daniel Vorcaro, do Banco Master, e ainda não explicou o destino.

De fato, o senador pediu diretamente ao ex-banqueiro o repasse. A fala de Lula, porém, exige contextualização. Segundo os dados que vieram a público até o momento, Vorcaro não chegou a repassar todo o montante. Ele enviou ao menos R$ 62 milhões antes de ser preso.

Flávio afirma que todo o dinheiro seria usado para custear o filme Dark Horse, sobre a biografia do ex-presidente Bolsonaro, mas a Polícia Federal apura se parte da verba foi desviada para bancar as despesas do seu irmão, Eduardo Bolsonaro, nos Estados Unidos.

O valor foi destinado ao fundo Havengate, que é administrado por Paulo Calixto, advogado ligado a Eduardo. Na última semana, a PF pediu ao STF a prorrogação do inquérito sobre o filme por mais 90 dias. O órgão diz que ainda é preciso aprofundar a análise para rastrear a origem das receitas e o destino de todos os repasses.

Em delação premiada, empresário Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro, que operacionalizou o repasse de Vorcaro, disse à PF que não sabia que o destino da verba era o filme sobre Bolsonaro. Afirmou ainda que a operação foi apresentada como oportunidade de investir em fundo ligado a empreendimentos imobiliários nos Estados Unidos.

Flávio erra ao dizer que Roberta admitiu ser sócia do Lulinha

No primeiro bloco do debate, Flávio repetiu por algumas vezes perguntas sobre a lobista Roberta Luchsinger, que é alvo de investigação em conjunto com Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, filho mais velho do presidente Lula em três inquéritos sob suspeita de corrupção e tráfico de influência.

Durante o debate Flávio fez menção à entrevista que ela deu à CNN Brasil no sábado (17), afirmando inclusive que Lula não deve ter dormido bem. Na sequência, ele perguntou: “Roberta e ela é sócia do seu filho. Ela falou que é sócia do seu filho. Por que a Polícia Federal só vai na casa dela e não vai na casa do seu filho?”

Apesar de um dos pontos apurados pela Polícia Federal ser a suspeita de que Roberta e Lulinha mantivessem uma “sociedade oculta” em negócios, não é verdade que ela tenha admitido isso na entrevista. Pelo contrário, ela negou: “Eu não tenho atuação profissional com Lulinha. Isso a mídia fala muito, ou criou-se em volta de mim essa história: ‘Roberta tem acesso, tem poder, Roberta tem isso porque ela é sócia do Lulinha'”.

Por outro lado, é verdade que ela afirmou que Lulinha esteve várias vezes com ministros do governo federal. A defesa de Lulinha nega que ele tenha cometido irregularidades.

Flávio é impreciso ao vincular escândalo do INSS apenas ao governo Lula

O senador acusou o governo Lula de roubar dinheiro de aposentados e afirmou que o empresário conhecido como Careca do INSS surgiu durante o mandato do presidente. A cronologia dos descontos investigados, porém, remonta a 2019, durante o governo Bolsonaro.

A Operação Sem Desconto, deflagrada em abril de 2025 pela Polícia Federal e pela CGU (Controladoria-Geral da União), investiga descontos associativos indevidos em benefícios previdenciários entre 2019 e 2024. No período, foram descontados cerca de R$ 6,3 bilhões, entre cobranças legais e ilegais. O volume anual atingiu o maior patamar em 2024, já no governo Lula, quando chegou a R$ 2,6 bilhões.

A atuação de Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, no setor de benefícios associativos remonta, segundo ele próprio, a 2017. Há registros de sua relação com entidades investigadas por descontos irregulares no INSS desde 2022, durante o governo Bolsonaro.

Bolsonaro não pode votar por ter condenação definitiva

No debate, o presidente Lula disse que gostaria de receber até mesmo o voto de Bolsonaro que está preso por tentativa de golpe. Em resposta, Flávio Bolsonaro disse que o pai não pode votar por ser “vítima de uma perseguição”.

Bolsonaro, de fato, não tem o direito ao voto. Isso porque a possibilidade de participar do pleito fica suspensa a partir do trânsito em julgado do processo, ou seja, quando a condenação já é definitiva.

Já os presos provisórios ainda mantêm o direito ao voto, uma vez que ainda não foram condenados em definitivo. Por causa desta regra, o banqueiro Daniel Vorcaro, por exemplo, votou mesmo estando preso na Papudinha, no DF. A partir de 2028, porém, nenhum preso terá direito ao voto. A mudança está prevista na Lei Antifacção, que impede o voto de qualquer tipo de preso.

É impreciso dizer que governo Lula não enviou representante para reunião sobre tarifaço

Flávio disse no debate que o governo Lula não enviou representante para a audiência pública do USTR (Representante de Comércio dos EUA), em julho, sobre uma investigação comercial que corria contra o Brasil. A apuração resultou num tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros.

A fala do senador é imprecisa. O argumento do governo Lula para não escalar representante para aquele encontro foi o de que a audiência era voltada para atores privados. Desde o início da ofensiva comercial do governo Trump contra o Brasil, houve diversas reuniões entre autoridades brasileiras e americanas. Do lado do Brasil, elas foram lideradas pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, pelo vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), ex-ministro da Indústria e Comércio, e pelo atual titular da pasta, Márcio Elias Rosa.

Falta contexto sobre dados usados por Lula sobre mortes na pandemia

O presidente também afirmou que 716 mil morreram por Covid-19 no Brasil, número também mencionado em painel do Ministério da Saúde. Lula ainda afirmou que cerca de metade das vítimas poderia ter sido salva. Trata-se de dado que precisa de contextualização e costuma ser atribuído ao depoimento do epidemiologista Pedro Hallal à CPI da Covid. Em junho de 2021, Hallal disse que 400 mil das cerca de 500 mil mortes registradas até então poderiam ter sido evitadas com a adoção de medidas certas, como a compra antecipada de vacinas.

Lula acerta ao citar expansão do Mais Médicos

O presidente Lula apresentou dados corretos sobre a expansão no número de profissionais contratados pelo Mais Médicos durante a sua gestão. Ele afirmou que, em 2022, havia 12 mil médicos no programa, número próximo aos 12,5 mil citados na série histórica do Ministério da Saúde como contratados em setembro daquele ano. Também disse que elevou a 27 mil profissionais no Mais Médicos, sendo que em dezembro de 2025 os mesmos dados apontam que 27,5 mil médicos estavam contratados.

noticia por : UOL

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