Em 1996, a população guatemalteca voltou às ruas. Naquele ano, foi firmado um acordo de paz que encerrou 36 anos de uma guerra civil que deixou cerca de 200 mil mortos e 6.000 desaparecidos, segundo o documento “Guatemala: Memória do Silêncio”, da Comissão para o Esclarecimento Histórico do país.
A maior parte das vítimas é formada por indígenas de ascendência maia. Números espantosos até mesmo para um continente atravessado por golpes de Estado, mortes e desaparecimentos políticos como a América Latina.
“Havia muita mobilização cidadã, muita utopia, esperança de mudança, de que os acordos de paz seriam levados a cabo”, conta a poeta e artista visual Regina Galindo. Nascida em 1974 na Cidade de Guatemala, capital do país, em uma família mestiça de classe média, Galindo despertou para as artes naquele instante. “[O Acordo de Paz] favoreceu um movimento da juventude, um movimento artístico. Houve uma explosão de expressões artísticas na cidade, não havia muitas instituições culturais.”
Foi nessa época que Galindo, até então voltada à poesia, começou a desenvolver sua atuação performática, pelo qual é internacionalmente reconhecida há 26 anos. Seu trabalho pode ser visto na galeria Portas Vilaseca, que traz a individual “Primavera Democrática”. A mostra, inaugurada em 7 de junho, reúne o registro de seis performances, incluindo a inédita que dá título à exposição, e foi apresentada na Praça da Harmonia, no centro do Rio.
“‘Primavera Democrática’ é um trabalho novo, criado para o Brasil. Meu primeiro detonador foi a primavera democrática que nunca se completou [no Brasil e na Guatemala].”
As performances da mostra tratam de dois temas caros à Galdino. Um deles é a questão do feminicídio, que inspirou trabalhos como “Jardín de Flores”, uma série de fotografias que nasce da performance homônima realizada pela artista em 2021, no Parque Concordia, na Cidade da Guatemala. A performance reuniu 25 mulheres trans imóveis sob tecidos coloridos por quase uma hora, formando um “jardim de flores” humano. O objetivo era denunciar a violência e a discriminação contra a população trans.
Em “Guatemala Feminicida” (2021), por sua vez, a artista caminha pelas ruas de sua cidade usando uma bandeira preta e branca como “esfregão” de limpeza, denunciando abusos e violações de direitos aos quais as mulheres estão sujeitas.
“Com os anos, começou a haver um descontentamento na Guatemala. O acordo de paz não foi respeitado. Houve uma exacerbação da violência, o fortalecimento do narcotráfico e [nesse contexto] os feminicídios se tornam um crime cotidiano”, conta a artista.
A questão do feminicídio a acompanha desde a primeira performance, em 1999. Na época, Galindo coletava notícias sobre violência de gênero na Guatemala para seus contos e poemas. Seu pai, o advogado Guillermo Galindo González, morto há poucos meses, ajudou a redigir a lei de feminicídio do país, que está em vigor desde 2008.
Segundo a artista, seu objetivo, ao tratar do assunto, é mostrar que, em países democráticos ou que superaram processos ditatoriais, a queda do número de casos de violência cometidos pelo Estado é acompanhada pelo recrudescimento da violência contra as mulheres.
De acordo com o Banco Mundial, a Guatemala, com aproximadamente 18,2 milhões de habitantes, “tem uma das maiores taxas de feminicídio do mundo”. E seguem em ascensão. Entre 2020 e 2021, esses números aumentaram de 1,3 por 100 mil mulheres para 1,6 por 100 mil mulheres, quando foram relatados 527 feminicídios.
Outro tema caro a Galindo, a violência estatal, aparece em duas performances. “El Gran Retorno” apresenta uma metáfora e paródia sobre o aparato governamental controlador e disciplinar. “La Sangre del Cerdo”, realizada nos Estados Unidos há oito anos, por sua vez, critica o autoritarismo trumpista e a perseguição a grupos de trabalhadores imigrantes, entre eles os guatemaltecos.
As obras calham com um momento no qual a Guatemala se reencontra com seu passado — o atual presidente, Bernardo Arévalo, é filho de Juan José Arévalo, um dos pais da esquerda reformista guatemalteca e latino-americana —e se vê diante de um futuro tão incerto quanto o dos anos 1950.
“Ele [Bernardo Arévalo] foi eleito democraticamente graças à mobilização popular, mas os oligarcas seguem no poder. O Legislativo e o Ministério Público estão nas mãos dos oligarcas. Ele não pode fazer nada. Tivemos uma primavera democrática que nunca foi lograda.”
Para piorar, o país vê a ascensão de Nayib Bukele. O presidente de El Salvador, país com um histórico de interferências na política guatemalteca, tornou-se figura mundialmente conhecida por seu governo repressor, que já mandou para prisão 2% da população do país. “Ele gostaria de ser presidente de toda região.”
Atualmente, porém, o que a preocupa mais é o genocídio da população palestina na Faixa de Gaza. De acordo com números da UNWAR, órgão das Nações Unidas para atuar em Gaza, com base em dados do Ministério da Saúde local, ao menos 50.144 pessoas foram mortas entre 7 de outubro de 2023 e 25 de março de 2025. O dado equivale a 25% do total de 200 mil vítimas guatemaltecas em 36 anos.
“A dimensão do que está acontecendo em Gaza multiplica a dimensão do horror que viveu a Guatemala. O genocídio de Guatemala foi o mais horrível das Américas. É negado pela história do meu país. Nas escolas não se ensina esse genocídio.”
noticia por : UOL





