6 de março de 2026 - 9:40

A família conservadora do desfile para Lula não existe na Bíblia

Uma ala do desfile de Carnaval, cheia de latas de conserva, tirou o sossego e a alegria de muitos. E incendiou polêmicas por todos os lados. No entanto, cabe perguntar: é possível basear o modelo “tradicional” de família na Bíblia?

Ao observar as narrativas bíblicas, encontram-se diferentes estruturas familiares, nas quais a poligamia patriarcal é predominante. Diferentemente de histórias oficiais, a Bíblia não esconde conflitos. Narra as invejas dos irmãos de José, o adultério de Davi, o estupro de Tamar, entre muitas outras cenas familiares tristes.

Jesus Cristo oferece base sólida para a sacralização da família tradicional? Difícil afirmar, considerando sua origem: uma moça grávida acolhida por um rapaz solteiro que se tornou seu pai. Além disso, ele era oriundo de Nazaré, cidade de fama duvidosa.

Quem fundamenta o elogio da família tradicional em Jesus parece esquecer o que Ele disse quando avisaram que sua mãe e seus irmãos queriam vê-lo:

“Quem são minha mãe e meus irmãos?” E, correndo o olhar pelos que estavam assentados ao redor, disse: “Eis minha mãe e meus irmãos. Portanto, qualquer que fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, irmã e mãe.” (Marcos 3.31-35)

À primeira vista, pode soar como atitude de adolescente, feliz no meio de sua “galera” e, por isso, esnobando os parentes. No entanto, a conclusão da narrativa —considerar família aqueles que fazem a vontade de Deus— aponta para algo mais profundo.

Os laços biológicos são relativizados porque, com Cristo, forma-se um vínculo mais forte: unir-se a outros filhos e filhas do Pai. O critério para discernir quem integra essa família passa a ser a prática da vontade divina —em síntese, amar a Deus e ao próximo como a si mesmo, inclusive o inimigo, orando por ele (Mateus 5.44).

No contexto atual, o pastor Elias Cardoso deveria repensar seu desejo de câncer aos que ridicularizaram a família conservadora, e substitui-lo por orações pelo bem deles.

Portanto, “família cristã”, no sentido mais concreto da palavra, não cabe na lata de conserva. Não tem formato único nem se define apenas por laços de parentesco.

É preciso cuidado com os radicalismos. Não se trata de desprezar a formação familiar. O Novo Testamento traz recomendações claras, inclusive ao tensionar o patriarcado, quando orienta que os maridos amem as esposas como Cristo amou a igreja e se entregou por ela (Efésios 5.25-26). Amor, nesse caso, é sacrifício e doação —não apenas desejo.

Sabe-se que Jesus, na cruz, confiou a mãe aos cuidados de João (João 19.26-27). Também censurou os fariseus que deixavam de sustentar pais idosos ao destinar seus bens ao Templo (Marcos 7.11). Novamente, as aplicações contemporâneas são muitas.

O que não se encontra em Jesus é a exaltação da família conservadora como único modelo legítimo. Ele nunca excluiu alguém por estar fora de um “padrão”. Hoje, o elogio exclusivo desse modelo tende a excluir muitos.

Segundo o Censo 2022 do IBGE, entre 2000 e 2022 o percentual de famílias com responsáveis do sexo masculino recuou de 77,8% para 51,2%, enquanto as chefiadas por mulheres cresceram de 22,2% para 48,8%. Quase metade das famílias brasileiras já não corresponde ao modelo tradicional evocado em discursos e imagens.

A psicóloga e terapeuta familiar Clarice Ebert (@clariceebert), em seu post “Família enlatada”, alerta para a simplificação dos dilemas familiares: “Os sofrimentos e desafios familiares são incalculavelmente diversos e precisam ser tratados com respeito, acolhimento e, a exemplo de Jesus, com muita compaixão”.

Expressar respeito, amor e compaixão —às próprias famílias e às diferentes, aos que pensam e creem de modo distinto— não seriam essas as marcas das famílias genuinamente cristãs, que buscam fazer a vontade do Pai?

noticia por : UOL

6 de março de 2026 - 9:40

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