14 de março de 2026 - 7:41

Na era da IA, por que os órgãos públicos ainda têm taquígrafos?

Ferramentas de inteligência artificial já são capazes de transcrever conversas de forma praticamente instantânea. A utilização de recursos automáticos de transcrição já virou rotina até mesmo na tela do celular. 

Ainda assim, no Brasil, a Câmara dos Deputados, o Senado Federal e o Supremo Tribunal Federal mantêm estruturas de taquigrafia para registrar ao vivo as falas e os debates das sessões e transformá-los em texto escrito. 

A taquigrafia é uma técnica de escrita rápida com registros na Antiguidade. Historiadores situam seus primórdios em sistemas gregos, mas foi no Império Romano que a prática passou a ter uso mais amplo, com as notas tironianas, atribuídas a Marco Túlio Tiro, no século I a.C. 

Os taquígrafos conseguem transcrever com rapidez os discursos por meio de sinais, abreviações e métodos específicos. A habilidade é bastante valorizada no serviço público. Na Câmara dos Deputados, por exemplo, a folha de janeiro de 2026 mostra analistas legislativos com remuneração bruta de até R$ 37.594,45. 

Taquígrafos à disposição 

No portal da Câmara, há 112 pessoas na área de atuação “Taquigrafia”, quase todas vinculadas ao Departamento de Taquigrafia, Revisão e Redação. O Senado registra 90 cargos de Analista de Registro e Redação Parlamentar, com 61 ocupados e 29 vagos. Já o STF mantém 8 cargos de taquigrafia, de acordo com o quadro efetivo divulgado pelo tribunal. 

No Senado, a remuneração para o setor de taquigrafia aponta o total de R$ 24.152,10 no topo da carreira, considerando a gratificação de desempenho de 60% e sem parcelas variáveis. Já no STF, uma resolução de 2023 tornou pública a tabela em que o topo da carreira somava R$ 19.823,62. 

Os números acima, entretanto, não são perfeitamente equivalentes. Na Câmara, o portal informa pessoas em uma área de atuação; no Senado e no STF, os dados vêm de quadros de cargos. 

Gazeta do Povo procurou os três órgãos para informar quantos profissionais estão envolvidos com a atividade de taquigrafia e quais são os custos com esses servidores, mas não recebeu resposta. 

Concursos públicos 

Não é só em Brasília que os taquígrafos continuam valorizados. Concursos para a função seguem aparecendo no serviço público. 

O edital de 2025 da Assembleia Legislativa de Rondônia, por exemplo, incluiu “Analista Legislativo – Especialidade Taquigrafia”. O concurso prevê salários entre R$ 6.503,55 e R$ 24.078,42, a depender do cargo.  

Na Câmara Municipal de São Paulo, o concurso aberto em 2023 incluiu “Técnico Legislativo – Taquigrafia”, com prova prática realizada em 2024. 

Servidores ocupantes de cargos efetivos aprovados em concurso, em regra, adquirem estabilidade após três anos de efetivo exercício e só podem ser demitidos em caso de falta grava. A rigidez do sistema dificulta a adaptação da máquina pública ao ritmo veloz das mudanças nos processos, nas tecnologias e na própria organização do trabalho. 

Novos recursos em expansão 

Os principais softwares de transcrição de áudio hoje se dividem entre plataformas de infraestrutura e ferramentas voltadas ao uso cotidiano. Em comum, todos operam com modelos de reconhecimento automático de fala.  

O usuário envia um arquivo ou capta áudio ao vivo, e o sistema converte a fala em texto, com recursos cada vez mais sofisticados, como pontuação automática, identificação de oradores, marcação temporal e vocabulário personalizado. 

As perspectivas para o setor de transcrição de áudio são de expansão, sobretudo à medida que os sistemas ficam mais precisos, rápidos e capazes de operar em tempo real, com identificação de diferentes falantes, suporte multilíngue e adaptação a contextos específicos.  

Esse avanço amplia o potencial de uso dessas ferramentas em áreas como atendimento ao público, reuniões corporativas, mídia, educação, acessibilidade, saúde e serviços públicos. 

Adaptação lenta do setor público 

Na avaliação de Ana Paula Bertolin, mestre em Administração e professora da pós-graduação em Gestão Pública da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), a dificuldade do poder público para acompanhar inovações tecnológicas tem a ver com barreiras institucionais.  
 
Segundo ela, ao contrário do setor privado, o Estado opera sob etapas formais que tornam as mudanças mais lentas. É um emaranhado de licitações, análises jurídicas, planejamento orçamentário e exigências de transparência e controle.  
 
“Esses mecanismos são fundamentais para garantir o uso adequado dos recursos públicos, mas acabam tornando o processo mais lento”, afirma Ana Paula. 
 
A especialista também aponta entraves ligados à gestão de pessoas. De acordo com Bertolin, muitas instituições públicas enfrentam limitações para investir na capacitação do corpo técnico, sofrem com a falta de reposição de servidores e mantêm carreiras que nem sempre acompanham a velocidade das transformações tecnológicas.  

Para ela, a preservação institucionale a segurança da informação continuam sendo centrais na administração pública, o que exige cautela na incorporação de ferramentas de inteligência artificial.  
 
“As ferramentas tecnológicas contribuem para aumentar a eficiência em tarefas repetitivas. O desafio está em incorporar essas soluções de forma responsável, garantindo governança e supervisão técnica”, afirma. 

Taquígrafos garantem que ainda são necessários 

Profissionais de taquigrafia com décadas de experiência na atividade dizem não ver a Inteligência Artificial como substituta imediata na transcrição de discursos e debates. Para eles, a tecnologia pode funcionar como apoio, mas ainda encontra limitações práticas. 

A professora e taquígrafa Maria Adelina Bastos de Azevedo, que deu aulas por décadas no Rio de Janeiro e trabalhou com secretárias executivas e empresas privadas, faz diagnóstico semelhante. Ela rejeita a ideia de substituição total pela tecnologia. 

“Jamais a inteligência artificial vai ultrapassar a taquigrafia. A taquigrafia é uma grande ferramenta para qualquer tipo de setor, útil muito além dos concursos públicos, em audiências, seminários, reuniões empresariais e até atendimentos profissionais”, afirma Maria Adelina, 80 anos. 

O professor e taquígrafo Eduardo Trevisan Duarte, que trabalhou no Judiciário e na Câmara de Vereadores de Porto Alegre. Ele diz que a “a Inteligência Artificial não pega tudo”, sobretudo em trechos com ruído, falas simultâneas e ambiguidades de linguagem.

Para ilustrar esse tipo de erro, Trevisan cita casos de transcrição automática em que frases foram deformadas de maneira absurda, como “o deputado foi interpelado no avião” que se transformou em “o deputado foi atropelado no avião”.

É verdade que o trabalho da IA precisa de supervisão. Mas será que essa função ainda vale os altos salários pagos pelo setor público?

noticia por : Gazeta do Povo

14 de março de 2026 - 7:41

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