O Dia Nacional da Libras é comemorado neste 24 de abril. Em 2002, neste dia, foi sancionada a Lei nº 10.436 que reconhece a Língua Brasileira de Sinais (Libras). Com isso, a data homenageia a comunidade surda e reforça a importância da acessibilidade linguística, diversidade comunicacional e a inclusão.
Há cerca de 10,2 milhões de pessoas surdas ou com deficiência auditiva no Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Deste número, 2,7 milhões convivem com surdez profunda.
Pessoas com deficiência auditiva encontram diversas barreiras, desafios e dificuldades ao longo de suas vidas, seja pela falta de acessibilidade ou pelo preconceito ainda presente na sociedade. A educação inclusiva é uma potencial ferramenta de transformação que muda a realidade de muitas pessoas surdas no país.
Histórias como a de Mariana Victoria Todeschini Sarnik, que se tornou uma das farmacêuticas surdas pioneiras a assumir o cargo de diretora técnica de farmácia, reforçam a importância da educação inclusiva para a transformação social.
A professora Bruna Narazaki é outro exemplo de mulher que encontrou na educação um instrumento de autonomia e inclusão.
“Quando a educação respeita as diferenças e garante acessibilidade, ela contribui diretamente para a formação de sujeitos mais preparados, críticos e seguros para atuar profissionalmente. Para as pessoas surdas, a educação inclusiva é decisiva para o rompimento de processos históricos de exclusão social e profissional.”
Bruna Narazaki
Neste Dia da Libras, o Brasil Escola conversou com Mariana e Bruna que compartilham sobre suas trajetórias de formação acadêmica enquanto mulheres surdas, do nível básico ao superior, até a inserção no mercado de trabalho.
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Desafios na formação escolar e no ensino superior
Natural de São José dos Pinhais (PR), Bruna Narazaki (36) é surda desde o nascimento em decorrência de rubéola contraída pela mãe durante a gestação. Na educação básica, a paranaense conta que enfrentou desafios de acessibilidade comunicacional, principalmente pela ausência ou insuficiência de intérpretes de Libras, práticas pedagógicas pouco inclusivas e falta de compreensão da surdez como uma diferença linguística e cultural.
Bruna se formou em Letras/Libras, fez especialização em Educação Bilíngue e Docência do Ensino Superior, atualmente é mestranda em Linguística na Universidade Federal do Paraná (UFPR). No âmbito do ensino superior, apesar de avanços na inclusão, os desafios permaneceram, especialmente quanto à qualidade da mediação linguística, adaptação dos materiais acadêmicos e reconhecimento da Libras como língua de instrução, relata.

Crédito: Divulgação.
A escassez de intérpretes de Libras também foi uma dificuldade vivida por Mariana Victoria Todeschini Sarnik (35). A paulista, natural da capital São Paulo e atualmente moradora de Campo Largo (PR), é surda bilateral profunda de nascença, oralizada e fluente em Libras.
Mariana se formou em Farmácia, e ao longo da graduação, encontrou dificuldades quanto ao entendimento de termos técnicos que ainda não têm sinais próprios padronizados, o que torna a comunicação ainda mais complexa.
“O curso de Farmácia é considerado complexo e intenso para os estudantes ouvintes. Imaginem para os surdos, que precisam superar, além da complexidade técnica, a barreira linguística entre duas línguas de estruturas completamente diferentes”
Mariana V. T. Sarnik

Crédito: Arquivo Pessoal.
Na faculdade, Mariana era a única surda de toda a instituição. Quando começou o curso não havia intérprete de Libras com conhecimento técnico em saúde, os professores falavam devagar para auxiliar no processo de leitura labial, mas a compreensão não deixava de ser limitada.
Mariana contou com o suporte e apoio familiar. Ela gravava as aulas e eles transcreviam todo o conteúdo. O fato de seu pai ser farmacêutico também contribuiu para seu processo de formação, considera.
Mercado de trabalho
Mariana reforça que na maioria das vezes há muito preconceito e capacitismo no processo de ingresso de profissionais surdos no mercado de trabalho. Em seu caso, conseguiu ser alocada em uma farmácia até que de maneira rápida, algo que a surpreendeu.
Ela se tornou uma das farmacêuticas surdas pioneiras a assumir o cargo de diretora técnica de farmácia. Em seu trabalho, desempenha várias funções como atendimento, entrada e saída de medicamentos, licenças nos órgãos regulatórios, alvarás e sistema de controle de medicamentos controlados.
Ao atender, a paulista conta que o paciente estranha a forma como ela se comunica e pergunta de onde ela é. A resposta é “sou farmacêutica e surda”. Quanto à reação, na maioria das vezes é de admiração, espanto, mas também carinho e disposição conjunta para encontrar formas de efetivar a comunicação, acrescenta.
No caso de Bruna Narazaki, sua inserção no mercado de trabalho aconteceu de forma gradual e foi marcada por desafios, principalmente relacionados às barreiras comunicacionais e ao preconceito.
Por ter formação específica na área de Libras e contar com experiência acadêmica, Bruna contou com oportunidades profissionais especialmente no campo da educação e da formação docente.
Bruna é professora de curso superior a distância no Centro Universitário Internacional (Uninter), instituição que conta com o Serviço de Inclusão e Atendimento aos Alunos com Necessidades Educacionais Especiais (SIANEE) que apoia atualmente cerca de 6,8 mil estudantes em todo o país.

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Importância da educação inclusiva
Para Mariana um dos principais desafios é o preconceito estrutural. Segundo a farmacêutica, “a maioria dos empregadores ainda acredita, de forma equivocada, que as pessoas surdas não têm capacidade para exercer a profissão”.
A justificativa é que os surdos “não sabem falar” ou que a comunicação será impossível e com isso, desconsideram que a comunicação em saúde é multifacetada e que existem inúmeras estratégias para superar barreiras auditivas, afirma Mariana.
“A surdez não é um impedimento para o exercício qualificado do trabalho profissional, mas sim um elemento que enriquece a prática, ao trazer olhares e estratégias diferenciadas para o atendimento.”
Mariana V. T. Sarnik
É imprescindível, para ela, que o tema direcionado à inclusão e acessibilidade de pessoas com deficiência sejam abordados em todos os níveis de ensino.
Ela destaca a necessidade de haver profissionais, de todas as áreas que olhem para os surdos como pessoas produtivas, capazes de serem o que quiserem ser.
Aprendizagem de Libras por farmacêuticos
Desde 2019, Mariana integra a equipe do programa FarmaLibras, uma iniciativa nacional desenvolvida pela Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) e o Conselho Federal de Farmácia (CFF) que busca estimular o aprendizado da língua de sinais pelos farmacêuticos brasileiros e desenvolver ferramentas de comunicação com as pessoas surdas usuárias da Libras.
No FarmaLibras, Mariana ajudou a criar um curso de Libras para farmacêuticos que é oferecido de forma online pela plataforma Edu.farma do CFF desde 2022. Além disso, contribuiu também no processo de desenvolvimento do Vocabulário Terminográfico Farmacêutico Bilíngue (Português-Libras) e o aplicativo web Farma Libras, ferramenta que ajuda o surdo a ser atendido com acessibilidade pelo farmacêutico ouvinte.
“A garantia do acesso linguístico ao surdo é primordial e me orgulho muito por fazer parte deste programa pioneiro em nosso país. Toda a equipe FarmaLibras busca realizar um trabalho farmacêutico tecnico, unido a estrutura gramatical da Libras e cultura surda, buscando, assim, contribuir para que a informação em saúde produzida alcance os surdos com acessibilidade linguística real e promova saúde com segurança e efetividade”
Mariana V. T. Sarnik

Crédito: Arquivo Pessoal.
Inclusão das pessoas surdas nas escolas e universidades
Confira o bate-papo do professor João Gabriel com a professora e especialista Lívia Martins Gomes sobre as principais questões que envolvem a população surda no Brasil:
Por Lucas Afonso
Jornalista
noticia por : UOL





