16 de maio de 2026 - 8:47

Bolsonaro é frágil vítima do 'sistema' em filme que revê a história da facada

Dark Horse” em inglês significa azarão. “Underdog” é um termo mais comum para essa situação. Alguém que luta contra forças maiores. Vem de um entretenimento comum na Inglaterra dos séculos passados. Colocavam um urso para brigar com dois cachorros. Um mais forte e um mais fraco. O mais fraco geralmente morria antes, o mais forte depois. Não é fácil brigar com um urso. O “underdog” estava lá para ser trucidado. Jair Bolsonaro tenta se mostrar nesse filme como o “underdog”, disfarçado de um “dark horse”.

Talvez “cachorro” não fosse um animal conveniente para um filme sobre Bolsonaro. Até porque o apelido dele, no Exército, era Cavalão. Mas o roteiro de “Dark Horse” apresenta Jair como um frágil cachorrinho lutando com ursos gigantes. As “elites”, o STF e um partido chamado “FLP” (Far Left Progressive) —seria o PSOL?— são retratados como parte de uma conspiração para assassinar o então candidato à Presidência.

Sabemos que o homem que esfaqueou Bolsonaro foi filiado ao PSOL —ou ao FLP, no filme. Adélio, que no filme se chama Aurélio. E talvez a única informação correta do filme seja a de que Bolsonaro de fato foi esfaqueado. Fora isso, o filme é inteiro uma doida ficção.

“Dark Horse” não é uma biografia de Bolsonaro. É uma biografia da facada —da página 31 do roteiro até o “the end”. E de um Bolsonaro corajoso durante sua estada no hospital. Ele se levanta, tenta fazer discursos, tem de ser agarrado à cama. Tem falas argutas e articuladas. Leiamos as notícias da época. Não foi bem assim.

Ao contrário do que a Polícia Federal investigou, o atentado, no filme, é um projeto de terroristas da esquerda. De Lula? Fica implícito. Na última cena, lá vai um “spoiler”, Alexandre de Moraes aparece numa reunião com os suspeitos. Quando Bolsonaro sai do hospital em Minas Gerais para ir para o Einstein, tem um esquema todo para matá-lo, por esses mesmos terroristas de esquerda.

Uma cena no início do filme mostra a América Latina toda sendo tomada por governos socialistas. A relação de Bolsonaro é mencionada uma única vez. Não é mencionada a tentativa dele de explodir algo.

Interessante também no roteiro é que as imagens de Bolsonaro no hospital são vazadas pela imprensa —de esquerda— quando era bem óbvio que isso foi usado como imagem de campanha. Os registros de um Bolsonaro moribundo foram importantes na ideia de um complô comunista para matar o candidato “fora do sistema”. Bolsonaro frágil, vitimado.

O mais interessante, contudo, neste roteiro, é que ele tenta limpar a imagem de um Bolsonaro violento. Não tem imagens dele votando no impeachment da Dilma Rousseff dedicando o voto ao torturador. Não tem a entrevista em que ele diz que o erro da ditadura foi ter torturado e não matado 30 mil. Não tem a imagem em seu gabinete, sobre as vítimas do Araguaia, falando que quem procura osso é cachorro.

Uma piscada para a esquerda aparece na figura de um enfermeiro negro e gay que enxerga “quem Bolsonaro realmente é” e decide votar no então candidato.

Dá para imaginar a reunião da sala de roteiristas em que esse personagem nasceu. O machismo, porém, passou longe dali. Bolsonaro dá em cima de uma enfermeira e diz a uma repórter que ele é “um homem” —algo que ela jamais conhecerá. A mensagem é clara —gente de esquerda não seria “macho” de verdade. No fim do filme, a jornalista se converte ao bolsonarismo. Ou melhor, a essa ideia de masculinidade que o filme tenta vender.

Apesar dessas piscadas para realidade “woke”, Bolsonaro, que se vendeu e foi eleito fazendo armas com as mãos, segurando um tripé de microfone dizendo que tinha de fuzilar a esquerda, fez um filme em que é uma frágil vítima do “sistema”. Talvez seja um bom sinal. De que os ventos mudaram e de que ele queira se vender de forma diferente. Ou talvez seja mais uma tentativa de se vender moribundo no hospital. Setembro, quando o filme for lançado, nos dirá se foi uma boa ou má ideia.

noticia por : UOL

16 de maio de 2026 - 8:47

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