Completar o álbum da Copa do Mundo da Fifa deste ano custaria R$ 1.004,90 no cenário improvável em que nenhum pacote trouxesse figurinha repetida. Sem trocas de cromos, a conta chega a R$ 7.362,90. Com duas pessoas trocando, o custo cai para R$ 4.638,90; com dez, para R$ 2.459,90, segundo reportagem da Folha. Os números mostram que, embora cada álbum seja individual, a forma mais barata e rápida de completá-lo depende de uma solução de rede.
Na matemática, este é conhecido como o problema do colecionador de cupons. Quanto mais completo o álbum, menor a chance de um novo pacote trazer algo útil: no início, quase tudo serve; perto do fim, quase tudo repete. Então a estratégia eficiente combina compra inicial, circulação das repetidas e, ao fim, compra direcionada das poucas faltantes, de acordo com um artigo de Sylvain Sardy e Yvan Velenik sobre álbuns da Panini. Ou seja, sem coordenação entre os colecionadores, a repetida é uma perda para cada um, mas com coordenação, pode servir de insumo para a solução.
Então, tentar maximizar o benefício de cada transação em vez de maximizar a possibilidade de permuta é um erro estratégico. Em uma rede de colecionadores, a pergunta-chave não é “essa troca melhora meu álbum agora?”, mas sim “essa negociação aumenta a chance de as figurinhas chegarem até quem precisa delas?”. Assim, lista de faltantes, pilha de repetidas, grupo de WhatsApp, encontro na escola, permutas entre primos, vizinhos e colegas de trabalho dos pais são parte da estratégia. Sei que soa banal, mas é assim que surge uma pequena infraestrutura de mercado.
Vale salientar que a legislação paulista proíbe que álbuns dependam de cromos raros para serem completados, à exceção dos extras que não auxiliam nessa tarefa. Em tese, os necessários para fechar o álbum deveriam ter probabilidade semelhante de aparecer nos pacotes e, portanto, valor semelhante nas negociações.
Folha Mercado
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Na prática, não é assim, afinal, a brilhante, o ídolo ou a seleção favorita podem valer mais simplesmente porque preferências são construídas no contexto: pelo visual, pela reação dos colegas e pela percepção de escassez. Além disso, bens percebidos como menos disponíveis tendem a se tornar mais desejáveis, ainda que a raridade subjetiva não corresponda à realidade. Consequentemente, uma figurinha estatisticamente comum pode se tornar difícil de obter se muita gente passar a valorizá-la em excesso.
Claro que esse valor subjetivo faz parte da graça de colecionar, mas também atrapalha quando o objetivo é completar o álbum. Se muitos tratam certos cromos como especiais demais para circular, a rede perde liquidez.
Essa mesma intuição sobre o funcionamento do mercado serve para pensar sobre outros temas, a exemplo do comércio internacional. Quando importações e exportações são tratadas como placar, comprar de fora soa como perda e vender para fora soa como ganho. Mas trocas geram benefícios mútuos porque países têm custos, capacidades e necessidades diferentes. Não se pode olhar cada transação como um jogo de soma zero, ignorando cadeias, insumos e possibilidades abertas pela circulação.
Logo, a boa troca nem sempre gera uma vitória imediata. Às vezes, ela só move uma figurinha para onde ela vale mais, melhora a reputação dentro do grupo ou abre uma possibilidade futura. Para quem quer completar o álbum, essa é a diferença entre acumular várias figurinhas repetidas e fazer a coleção avançar.
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noticia por : UOL






