A coisa mais desconcertante ouvida nesta terça (4), na reunião extraordinária (por videoconferência) dos ministros do Interior da União Europeia, foi a declaração do Comissário Europeu para os Assuntos Internos e Migração, Magnus Brunner, segundo a qual a crise de Ceuta já terminou e a Europa “passou com folga no teste”.
O que autoriza essa afirmação, segundo Brunner, é o fato de que nenhum dos 72 mil imigrantes (números oficiais) que entre 30 e 31 de julho cruzaram a fronteira do Marrocos em direção ao enclave espanhol de Ceuta chegou ao continente europeu e, portanto, não há nenhum risco para o espaço Schengen (ou seja, a livre circulação entre os 29 países europeus que dele fazem parte).
Afora o fato de que a imprensa espanhola revelou, ao contrário, que há sim chegadas à Espanha, a situação em Ceuta está longe de ser tranquila e a crise longe de ser superada. Segundo os números oficiais, teriam restado 2 mil imigrantes ilegais, dos quais cerca da metade são menores de idade, que no entanto não têm possibilidade de serem acolhidos nos centros de acolhimento já superlotados. Entre os outros que permaneceram em Ceuta estariam também palestinos de Gaza e afegãos.
Mas como se não bastasse, justamente enquanto Brunner fazia exibição de otimismo, espalhava-se o alarme por uma nova campanha nas redes sociais no Marrocos que está agendando para 15 de agosto outro assalto a Ceuta. Visto o amplo aviso prévio, dificilmente desta vez as autoridades espanholas se deixarão pegar de surpresa, mas a mensagem é clara e há poucos motivos para ter tranquilidade.
Quem deixou isso bem claro foi o Presidente da Conferência Episcopal Espanhola, dom Luis Argüello, com uma breve publicação no X; ele também falou da invasão de Ceuta como um teste, mas com um significado totalmente diferente em relação ao defendido pelo Comissário Europeu Brunner: “A biopolítica – escreveu dom Argüello – é a chave da atual estrutura de poder no mundo. Joga-se com a vida, e as pessoas – seus sonhos, a fome, a sexualidade e os dados – são usadas para obter lucros e poder. As migrações são parte dessa estratégia. A invasão de Ceuta é um teste. A demografia é uma arma”.
A centena de pessoas mortas por afogamento na tentativa de alcançar Ceuta e as milhares de testemunhas de pessoas que em boa-fé se iludiram de poder encontrar facilmente um futuro melhor cruzando a fronteira estão ali para demonstrar o quanto dom Argüello acertou na questão.
Infelizmente não há a mesma lucidez em Bruxelas. Na coletiva de imprensa final do encontro extraordinário, buscou-se sobretudo passar uma imagem de unidade da União Europeia: na solidariedade à Espanha, na intenção de reforçar a política de repatriações, na decisão de continuar a luta contra os traficantes de seres humanos, na vontade de construir parcerias sólidas com países terceiros. Nada verdadeiramente novo, na realidade, mas sobretudo zero conscientização de que as migrações estão sendo usadas como arma. Além disso, sob essa aparente unidade de intenções esconde-se um certo nervosismo entre os países europeus. Ontem o governo espanhol colocou novamente a Itália no alvo pedindo que revogue o restabelecimento dos controles de fronteira para os passageiros que chegam da Espanha por avião ou navio.
O ministro do Interior, Matteo Piantedosi, respondeu dizendo que essa não é uma medida contra a Espanha, mas sim uma providência “destinada a proteger a segurança nacional”. Mas às vésperas da reunião de ontem, ao lado da Itália havia outros 23 países pedindo um encontro extraordinário para discutir Ceuta, sinal de que a atitude da Espanha provoca alguma preocupação. E o próprio Piantedosi, embora prestando solidariedade à Espanha, não deixou de sublinhar como gostaria que a Itália tivesse recebido a mesma solidariedade pela crise de 2023 em Lampedusa.
Mas, sobretudo, o que motiva as preocupações de tantos governos europeus é a atitude do governo espanhol em relação aos imigrantes ilegais. Como já lembramos nestes dias, no último mês de fevereiro o governo socialista de Pedro Sánchez tinha regularizado meio milhão de imigrantes que chegaram ilegalmente à Espanha. São, portanto, pessoas que agora podem circular livremente pela Europa. E, de fato, sobre o assunto, até o Comissário Europeu Brunner deu uma bronca no governo Sánchez ontem na coletiva de imprensa: as regularizações “não são um bom sinal para o resto da Europa, de forma alguma. Entendo que é competência nacional e que foram feitas porque se trata principalmente de latino-americanos, que falam a mesma língua e têm a mesma cultura, mas a mensagem para o resto da Europa não é positiva. De forma alguma”.
Além disso, quanto a Ceuta, a situação não é tranquila nem mesmo na Espanha: justamente para oferecer assistência às centenas de menores que perambulam por Ceuta, o governo destinou 25 milhões de euros, mas as oposições temem que todos acabem sendo levados para a Espanha. Assim, as regiões governadas pelo Partido Popular e Vox já se fecharam ao acolhimento de menores vindos de Ceuta: “Quem criou o problema é quem deve resolvê-lo, ou seja, o governo espanhol”, disse o secretário-geral do PP, Miguel Tellado, indicando como único caminho possível a repatriação de quem entrou ilegalmente. “Esta não é uma crise migratória – disse ainda –, é uma crise de segurança nacional”.
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noticia por : Gazeta do Povo





