4 de outubro de 2026 - 19:52

Roberto Calasso lança nova luz sobre a Bíblia com detalhes e lacunas

A erudição do ensaísta e editor italiano Roberto Calasso é capaz de produzir um efeito de insidioso fascínio a partir de uma premissa aparentemente banal: recontar o Antigo Testamento da Bíblia (com referências, aqui e ali, ao Novo Testamento).

É um prodígio difícil de imaginar. Será mesmo possível lançar qualquer luz nova que seja sobre Adão e Eva, Noé, Moisés e outras figuras das quais até quem cresceu na mais ateia das famílias já ouviu falar?

Sim, mostra o autor em “O Livro de Todos os Livros”, uma obra que parece operar uma espécie de quadratura do círculo interpretativa.

De um lado, Calasso domina os pormenores da Bíblia hebraica e de suas traduções canônicas pré-modernas —a versão em grego, ou “Septuaginta”, e o latim da chamada “Vulgata”. Conhece as tradições exegéticas dos rabinos da Antiguidade, da Cabala, dos primeiros séculos cristãos.

Isso poderia sugerir uma visão que associa excessivamente o texto bíblico às visões mais influentes dos que tentaram interpretá-lo no passado.

É aqui que entra a segunda parte da manobra de Calasso: a capacidade de chamar a atenção para cada aspecto das Escrituras que é profundamente alienígena, inexplicável e, principalmente, repleto de lacunas. Buracos que não são “falhas de roteiro”, por mais que pareçam algo do tipo aos olhos de um leitor moderno.

Os exemplos são abundantes, estando os mais óbvios nas narrativas primordiais do livro do Gênesis. Afinal de contas, por que Deus aceitou as oferendas de Abel, mas não as de seu irmão Caim, desencadeando o ciúme que levou ao primeiro assassinato e fratricídio? O que passou pela cabeça do jovem Isaac quando, obedecendo às ordens divinas, seu pai Abraão se dispôs a sacrificá-lo como um cordeiro?

A respeito desses e de muitos outros enigmas, o texto hebraico simplesmente se recusa a oferecer mais detalhes. Calasso até insere, aqui e ali, as tentativas de domesticar tais passagens ao longo dos milênios, transformando narrativa misteriosa em teologia lógica e dogmática.

Mas o mais comum, conforme ele deixa entrever, é que essas propostas só sirvam para reforçar como o texto original é estranho e inescrutável, apontando para concepções de mundo que não se rendem ao moralismo fácil de um sermão.

O escritor volta a alguns desses temas com frequência, como o significado da “eleição” —afinal, o Deus da Bíblia escolhe seus protegidos de forma arbitrária?— ou do sistema de sacrifícios de animais no Templo de Jerusalém, mais tarde ressignificado pela visão cristã acerca da crucificação de Jesus.

Se a descrição do que o livro tenta fazer soa complicada, é porque a estrutura proposta por Calasso de fato o é. Não se trata de uma simples paráfrase comentada da Bíblia hebraica, e isso fica claro desde o início.

O autor começa no momento anterior à criação do Cosmos, inspirando-se em tradições rabínicas. Depois, salta para os primeiros reinados do povo de Israel (os de Saul, Davi e Salomão), chegando quase ao fim da monarquia israelita antes de voltar ao primeiro patriarca, Abraão.

A jornada não linear se baseia, em parte, em outro princípio da tradição judaica, o de que cada versículo da Bíblia pode ser justaposto a qualquer outro e interpretado em conjunto com ele.

É como se, apesar da linearidade da narrativa sobre a ascensão, corrupção, queda e restauração do povo judeu, a história também existisse numa espécie de eterno presente, um quadro esboçado antes de todos os séculos.

Como seria de esperar, é uma estrutura que abre a porteira para digressões, e Calasso mergulha nelas sem a menor culpa. Suas páginas sobre a figura de Moisés, por exemplo, têm como astro coadjuvante que rouba a cena o pai da psicanálise, Sigmund Freud.

Talvez empatado com Albert Einstein como a pessoa de origem judaica mais influente dos últimos séculos, Freud concluiu no último ano de sua vida um estudo iconoclasta justamente acerca de Moisés.

Conforme o erudito italiano deixa claro, ninguém mais leva a sério as conclusões específicas de Freud sobre quem seria o “verdadeiro” profeta —o que não significa que as ideias do psicanalista não sejam capazes de iluminar aspectos importantes da trajetória judaica.

Por fim, que o leitor não se surpreenda se terminar o livro com vontade de ler a Bíblia em latim —o entusiasmo de Calasso pela antiga tradução da “Vulgata” e por seu potencial interpretativo e artístico é contagioso.

noticia por : UOL

4 de outubro de 2026 - 19:52

LEIA MAIS