Há três anos, Ariana Grande publicou um vídeo nas redes sociais com um recado claro aos fãs: quaisquer opiniões que tivessem sobre sua perda de peso, seria melhor que guardassem para si.
“O corpo com o qual vocês vêm comparando o meu corpo atual era a minha versão menos saudável”, disse ela, em resposta a uma enxurrada de comentários preocupados provocados por fotos suas durante a produção do filme “Wicked“. Ela explicou que, quando tinha o peso que muitos fãs consideravam “saudável”, estava “no pior momento” de sua vida.
“Acho que deveríamos ser mais gentis e nos sentir menos à vontade para comentar sobre o corpo das pessoas, seja qual for a situação”, alertou.
Grande passou a estar sob holofotes ainda mais intensos nos anos seguintes. Recebeu sua primeira indicação ao Oscar por “Wicked”, apresentou o “Saturday Night Live” duas vezes, lançou um álbum aclamado pela crítica e, nos últimos meses, embarcou em uma turnê por grandes arenas. Então, no domingo, um representante de Grande informou que ela em breve faria uma pausa na vida pública, citando o “escrutínio público incessante e contínuo”.
O anúncio pareceu ter a intenção de silenciar os ciclos de discussões on-line sobre a aparência física de Grande, que se intensificaram desde que ela tentou acalmar as preocupações em 2023.
A conversa sobre Grande que surge após a divulgação de publicações nas redes sociais, fotos de paparazzi, vídeos da turnê postados por fãs e videoclipes costuma se transformar em uma teia emaranhada de preocupação e especulação, com fãs e observadores discutindo sobre a cultura das dietas, a privacidade e a antiga obsessão pelo corpo de celebridades mulheres.
“Por um lado, há muita preocupação e carinho”, disse Lucy Bennett, pesquisadora que estuda comunidades de fãs de música, “mas talvez o efeito coletivo tenha sido avassalador para ela e tenha se sobreposto à discussão sobre a música”.
Grande, que passou o verão se apresentando por todo o país, raramente falou sobre as preocupações com seu peso desde o vídeo de 2023. Mas o comunicado de seu representante fez alusão a elas, afirmando que a cantora esperava “concluir a turnê e encerrá-la em alta, com saúde e felicidade”. Os representantes de Grande não quiseram fazer outros comentários.
Durante uma parada da turnê em Chicago, na segunda-feira, Grande falou do palco sobre a decisão em observações por escrito, dizendo que ela não havia sido impulsiva, mas algo que vinha considerando havia algum tempo.
“Várias coisas podem ser verdade ao mesmo tempo: sim, pode ser necessário estabelecer limites”, disse Grande, enquanto a multidão explodia em aplausos. “Às vezes, os seres humanos podem precisar de uma pausa.”
E, acrescentou ela, a turnê continuaria sendo “a melhor experiência” de sua carreira.
Em uma era de relações parassociais entre fãs e ídolos, a atriz adolescente de televisão que se tornou estrela pop está longe de ser a primeira a se incomodar ao sentir que integrantes do público ultrapassaram os limites.
Enquanto se apresentava no palco em 2013, Fiona Apple explodiu contra uma pessoa da plateia que gritou “fique saudável”, em referência às preocupações com seu peso.
“Sou saudável e nem deveria ter de dizer nada disso”, afirmou Apple mais tarde à Pitchfork. “O que me faz mal e me coloca em perigo é justamente esse tipo de escrutínio.”
Nos últimos anos, celebridades tentaram estabelecer limites para seus fãs apaixonados e, por vezes, obsessivos. Doja Cat certa vez lhes disse sem rodeios: “Eu nem conheço vocês”, enquanto Chappell Roan se manifestou enfaticamente contra comportamentos “assustadores” de fãs. As duas cantoras enfrentaram reações negativas depois de ofender alguns dos que ajudam a impulsionar seu sucesso.
Há anos, os fãs de Grande, de 33 anos, aproveitam qualquer detalhe que consigam descobrir sobre assuntos como sua vida amorosa — um relacionamento com outro ator de “Wicked”, Ethan Slater, rendeu bastante assunto. Mas sua aparência física há muito tempo é um tema particularmente delicado.
As regras de um canal dedicado a ela no Reddit determinam que quaisquer publicações sobre perda de peso, entre outros assuntos, serão removidas pelos moderadores. Alguns consideram isso fofoca de tabloide que só pode prejudicá-la, observando que ela tem demonstrado saúde suficiente para realizar grandes apresentações durante uma turnê fisicamente extenuante. Outros veem o tema como algo que não deveria ser completamente ignorado, sobretudo porque Grande é uma figura pública influente e um ídolo para muitas meninas pré-adolescentes e adolescentes.
“Não sei onde fica o limite”, disse recentemente Megan Mansell em seu podcast, “The Edge Breakfast”. “Quero respeitar a privacidade de alguém e, ao mesmo tempo, preciso reconhecer o impacto cultural do que milhões de pessoas estão vendo.”
Alguns interpretaram as letras do álbum mais recente de Grande, “Petal“, que estreou com sucesso na semana passada, como uma reflexão sobre a relação conturbada que ela mantém com alguns segmentos de sua base de fãs.
“É realmente culpa minha que todos vocês tenham me dado seus corações por vontade própria?/Acho que não”, canta ela no primeiro single do álbum, “Hate That I Made You Love Me”.
Um videoclipe inspirado na Hollywood clássica para a faixa-título do álbum mostra Grande interpretando uma personagem que é repetidamente considerada “aquém do esperado” por um grupo de homens. A personagem então mata todos eles com uma motosserra.
A notícia de que Grande se afastaria temporariamente da vida pública após o fim de sua turnê, em setembro, provocou uma enxurrada de mensagens de apoio dos fãs, muitos dos quais respaldaram sua escolha de priorizar o próprio bem-estar, mesmo que isso significasse menos conteúdo para analisarem. Não foi uma decisão pequena para uma celebridade cuja carreira vinha a todo vapor.
Junto com essa decisão veio o anúncio, no domingo, de que ela não mais estrelaria ao lado de Jonathan Bailey uma nova montagem teatral de “Sunday in the Park With George”, de Stephen Sondheim, cuja estreia está prevista para o próximo ano, em Londres. Também não está claro qual será seu grau de envolvimento no lançamento, neste segundo semestre, de “Focker-In-Law”, sequência de “Meet the Parents” na qual atua ao lado de Ben Stiller e Robert De Niro.
Em uma entrevista durante a turnê de divulgação de “Wicked”, em 2024, Grande se emocionou ao ser questionada sobre como lidava com os padrões de beleza da sociedade, dizendo que se sentia como uma “amostra em uma placa de Petri” desde a adolescência.
“Sei como é a pressão desse ruído”, disse ela. “Isso reverbera em minha vida desde os 17 anos. E eu simplesmente não permito mais que entre. Não é bem-vindo.”
noticia por : UOL




