4 de agosto de 2026 - 16:34

Sem audácia, Ariana Grande desaparece dentro do disco 'Petal'

Durante os anos 2010, Ariana Grande parecia ter sua personalidade enquanto cantora bem definida. Após deixar a Nickelodeon, onde passou os primeiros anos de sua vida adulta atuando em séries adolescentes, a americana se estabeleceu, através dos álbuns “Yours Truly” e “My Everything”, como um novo nome do R&B influenciado pelo hip-hop que, na época, escalava as paradas dos Estados Unidos.

Mas, uma década depois, Grande parece incerta do lugar que ela mesma quer ocupar na indústria do entretenimento. Nos últimos anos, ela voltou à atuação e admitiu que queria focar mais no cinema do que em sua carreira de cantora pop. Mesmo assim, pouco mais de dois anos após o lançamento de “Eternal Sunshine“, em março de 2024, a cantora voltou à música com “Petal”, lançado nesta sexta, dia 31.

Com pouco mais de meia hora, “Petal” é o álbum mais insípido de Grande. A cantora, que um dia lançou hits explosivos como “Break Free” e “Problem“, abandonou o pop expansivo e as letras provocativas a favor de uma estética mais discreta. Mas, ao invés de passar intimidade, a atmosfera retraída do disco apenas parece mostrar que Grande já não sabe –ou não tem– muito o que acrescentar à paisagem atual da música pop.

O primeiro single de “Petal”, “Hate That I Made You Love Me“, já dava sinais da direção mais suave que o álbum seguiria. Para Grande, fazer baladas não é nenhuma novidade –seu último grande hit foi “We Can’t Be Friends (Wait For Your Love)”, uma canção de amor altamente radiofônica–, mas “Hate That I Made You Love Me” é construída sobre um instrumental eletrônico que pouco se modifica entre os versos e o refrão, fazendo a faixa ficar cansativa apesar de seus curtos três minutos.

Assim como a faixa principal, boa parte das 12 músicas de “Petal” conta com batidas repetitivas e insossas de baterias eletrônicas, além de sintetizadores que acrescentam pouco às texturas do álbum. Os instrumentais são tão discretos que não chegam nem a ser incômodos: é música de plano de fundo que, se você trouxer à frente, vai perceber que não tem muito para processar.

Há pequenos traços de algumas tendências dos anos 2020. Assim como batidas inspiradas no dance –um aceno que a cantora fez com muito mais maestria no single “Yes, And?”, de 2024–, há momentos em que Grande desacelera tanto que chega a quase flertar com o trip hop, caso de “Oh Well”. O ritmo britânico de batidas lentas vem experimentando uma ressurgência por nomes alternativos do pop como Erika de Casier e Greentea Peng.

Mas a cantora e seus produtores, os já conhecidos suecos Max Martin e Ilya Salmanzadeh, não se comprometem o bastante em nenhuma direção que torne o disco mais do que uma tentativa tímida de se enturmar com a vanguarda pop.

No final dos anos 2010, Grande era realeza das paradas e rádios, encaixando três álbuns em três anos de 2018 a 2020 e emplacando alguns de seus maiores hits, como “God Is a Woman“, “Thank You, Next“, “7 Rings” e “Positions”. Mais do que muitas de suas contemporâneas, a cantora parece ter entendido o encaixe de sua alta potência vocal com batidas modernas do R&B e hip-hop. Na época, ela trabalhou com produtores como Pharrell Williams e Hit-Boy e colaborou com Nicki Minaj, Missy Elliott, 2 Chainz e Doja Cat.

Mas, em “Petal”, o ímpeto de Grande em fazer algo com qualquer tipo de peso parece ter se dissipado. Sua característica mais marcante, os tão potentes vocais, também aparecem atenuados até em momentos em que poderiam brilhar, como na faixa de mais atitude “Stay”. Um disco mais íntimo e discreto não é algo necessariamente negativo, mas Grande fica sem direção quando perde a extravagância que marcou grande parte de sua carreira.

“Petal” parece uma tentativa da cantora de não deixar a peteca cair, e de atrair os olhos e ouvidos de uma audiência que se distrai tão rapidamente com novos nomes. Faltam novas ideias e mais audácia para que Ariana Grande volte a ocupar um lugar entre os grandes nomes do pop.

noticia por : UOL

4 de agosto de 2026 - 16:34

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